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Professora Doutora Barbara Carine: uma intelectual diferentona


Olá gente, tudo bem? Hoje é mais uma quinta-feira e estamos começando mais uma edição do podcast fragmento. O podcast da livraria Pandora.Hoje vamos receber para nossa revista semanal a professora doutora Barbara Karine.Vocês vão ficar apaixonados também.Antes, porém, vamos ouvir um poema de Cecília Meireles para nos ambientarmos.


Basta-me um pequeno gesto,

feito de longe e de leve,

para que venhas comigo

e eu para sempre te leve…


– mas só esse eu não farei.


Uma palavra caída

das montanhas dos instantes

desmancha todos os mares

e une as terras mais distantes…


– palavra que não direi.


Para que tu me adivinhes,

entre os ventos taciturnos,

apago meus pensamentos,

ponho vestidos noturnos,


– que amargamente inventei.


E, enquanto não me descobres,

os mundos vão navegando

nos ares certos do tempo,

até não se sabe quando…


– e um dia me acabarei.


Cecilia Meireles, Viagem

 

Apresentador: Vamos lá então para a nossa entrevista? Barbara Karine é a nossa convidada desta semana, uma professora lá de Salvador. Doutora, é militante, enfim, é uma intelectual diferentona, assim como ela se identifica em seu perfil no Instagram. Mas, a gente vai ter oportunidade de conhecer melhor a partir de agora. Barbara, fala para a gente um pouco, quem é Bárbara e como a química, né? Como a química e a docência entrou na sua vida? Por que você escolheu a área de química e também ser professora? Quais foram as suas influências para essa decisão?


Barbara: Olá, meu nome é Bárbara Carine Soares Pinheiro, eu sou, sou mãe, sou mulher negra, cis, nordestina. Sou educadora, né? Sou professora na universidade federal da Bahia, no instituto de química. Sou professora, portanto, de química, né? E, sou também, sócia em um minha escola aqui em Salvador, na escola afro brasileira, chamada Maria Felipa. Ah, o interesse na área de química, vem… é meio meio contraditório, talvez, né? Eu sou uma menina negra de favela, né? Venho da periferia aqui de Salvador. Eh, fui criada fundamentalmente pela minha mãe. Nós morávamos com ela, né? Eu tinha meu pai, mas meu pai tinha uma outra casa, outra família. Então era cotidiano, né, era da criação da minha mãe, que era uma mulher negra também. Ex-empregada doméstica, né. Então, muito atípico, uma jovem negra, favelada, decidir pelas áreas, por uma área das exatas, né? Mas eu tive a oportunidade de estudar em uma escola pública aqui de Salvador, que é o antigo CEFET, uma escola técnica, né? E lá eu desenvolvi muito fortemente, o gosto, pelas ciências, ditas exatas, né? Por matemática, por química. A rigor, a rigor, talvez eu devesse ser engenheira química. Porque eu gostava muito de química e de matemática, né? Até o último dia lá, da inscrição no vestibular, eu estava na dúvida se eu faria vestibular pra química ou para matemática, porque no meu entendimento, eu só poderia ser professora. Porque eu nunca tinha me visto, né? Eu, mulher negra, pessoa negra em geral, eu nunca tinha me visto em um outro posto de trabalho, de formação superior que não, professor/professora, né? Nunca tinha visto mesmo uma pessoa engenheira negra, não tinha, então era um lugar de projeção pra mim é muito difícil, né? Professores, eu tive, então eu imaginava, né? Me projetavam nesse lugar. De ser professora, é de química ou de matemática. No apagar das luzes, eu escolhi a química porque eu fui conversar com meu professor de química e como professor de matemática, eram 2 homens e eles me informaram, assim, me deram a entender que química era melhor para o mercado de trabalho, porque além de ser professora, se eu quisesse, eu poderia trabalhar na indústria, né? Na parte farmacêutica, na Cosmetologia, enfim, tinha um campo de atuação profissional mais amplo e quando a gente é pobre, né? A gente pensa muito nessa base material, né? Assim, eu tenho que trabalhar, eu preciso me sustentar, então, que área que eu vou escolher que vai me dar esse retorno, né? Então optei pela química, mas já entrei, nitidamente, sabendo que queria ser professora de química.


Apresentador: Bárbara, a sua trajetória, assim como a de muitas, é muito difícil de ser trilhada, né? Às vezes é preciso abrir mão de sonhos, perspectivas, enfim, mas quando se tem apoio e referência, a gente acaba por conseguir vencer certos obstáculos. É, diante disso, quais são ainda os seus sonhos? O que você pretende ainda realizar? Seus medos, anseios, enfim, é fale um pouco mais de Bárbara e suas perspectivas.


Barbara: Bom, Bárbara Karine, acho que como eu apresentei inicialmente aí, né, na questão anterior, é uma mulher, uma mãe, uma educadora, né? Uma professora, funcionária pública, empresária também né? Uma militante negra, uma escritora, uma pesquisadora. Uma mulher multifacetada, que não abre mão da sua essência, né? De mulher favelada, de alguém que se construiu a partir de uma cultura de periferia, né? E que valoriza e que ama essa essa cultura, né? Então… então, acho que eu me identifico desse modo. E hoje, meus sonhos, ah! É muita coisa, né? Enquanto bom, é óbvio que eu tenho um sonho de que minha filha cresça, que seja feliz, que seja realizada em suas escolhas, né? Que tem a possibilidade de viver em um mundo livre. Em um mundo, não só de liberdade de ir e vir, mas liberdade de possibilidades existenciais, né? Que ela possa ser exatamente o que ela sonhasse ser. E que ela sonhe alto, que ela sonhe grande, né? Porque o nosso sonho também é, na medida do que o mundo nos oferece, infelizmente. É, enquanto mulher, eu tenho sonhos, né? Eu tenho sonhos, da auto sustentação da minha família, por exemplo. Minha família hoje ainda é, financeiramente é muito dependente de mim, né? Irmãos, principalmente, né? Porque mãe é isso mesmo, né? Vai ser dependente até o resto da vida. Eu fui dependente dela, né? Hoje é, hoje ela é minha.Mas enfim, que meus irmãos prosperem, né? Que tenham bons empregos, que se auto sustentem, né? Minha família. Ah, tenho um sonho, de continuar produzindo né? De continuar, desempenhando um papel social que eu tenho, desenvolver uma intelectualidade, uma intelectualidade na área da educação para as relações étnico raciais no campo das ciências da natureza. Continuar socializando uma ciência africana. É? De melhoria obviamente, não é, é? Salarial? De ter uma realidade material ainda melhor, né? Pra que, eu possa, possa curtir um pouquinho dessa vida, né? Por que às vezes a gente vive mais para sobreviver. Para ajudar as pessoas, pra pagar contas, né? Eu me sinto ainda nesse lugar. Então eu quero curtir um pouquinho mais, quero viajar mais, quero conhecer coisas, quero… tenho esses interesses, sim. Tem interesse que a Maria Felipa, ela cresça, né? Que seja uma escola… é grande estruturalmente, como ela é grande em ideais, né? Eu sou uma mulher de muitos sonhos.


Apresentador: Gente, estamos aqui conversando com Bárbara Karine, que fala de seus sonhos, suas perspectivas, fala de sua vida… Ela é professora universitária em Salvador. Tem uma escola com um ideal gigantesco, como ela mesmo falou, ela se intitula como uma intelectual diferentona, e de fato, a sua trajetória, não deixa dúvidas. E agora? Agora eu quero ouvir de Bárbara sobre os livros, ela é autora de alguns títulos voltado para a área pedagógica e sempre dentro da sua realidade, né? Tentando colocar a química a serviço da sociedade, né? De uma formação mais humana para as pessoas. Barbara, fale um pouquinho de pessoas, de suas obras, de seus livros.


Bárbara: Bom, na realidade, são 6 livros.O primeiro deles foi publicado em 2014, que é um livro de funções orgânicas e a pedagogia histórico crítica no ensino de ciências. Que é um livro que eu falo um pouco de mediação didática, né? Da química orgânica, a partir do contexto dos alimentos, amparado em uma teoria pedagógica chamada pedagogia histórico crítica. O segundo livro que é um livro de 2016. 2016 eu lanço 2, né? Um de autoria, que é uma formação de professores e professoras de ciências, na perspectiva sócio histórica. Eh, que é um livro que eu falo da formação de professores e professoras. A partir desse viés, dessa teoria, né? Que foi uma teoria que eu, que eu estudei, que eu me aprofundei durante meu mestrado e meu doutorado, que é a pedagogia histórico crítica. Nesse mesmo ano, eu organizo um livro juntamente com outros professores da universidade. Com o professor José Luiz, o professor Hélio Messeder, o professor Edilson Moradillo, que é o livro identidade docente em química, que é uma coletânea de possibilidades de pesquisa, né? Que nós mapeamos no instituto de química. Naquele contexto, até o ano… acho que 2014 se não me engano, né? As pesquisas desenvolvidas na área da educação, de 2010 a 2014.E aí organizamos essa coletânea, que é uma coletânea também voltada para a formação docente. 2018, eu vou organizar um outro livro, que é um livro descolonizando saberes, a lei 10639 no ensino de ciências, organizo junto com a professora Katemari. A partir de uma disciplina que nós damos no programa de pós-graduação, que eu disciplina, né? De ciência africana e afro diaspórica. Então, como pensar a mediação de, a mediação didática na área de ciências da natureza e para além dela, é pautado na lei de um 10.639, que é uma lei que prevê o ensino de história e cultura africana e afro brasileira em toda a extensão curricular da educação básica, né? É, então é uma coletânea, tem vários autores e autoras que foram nossos discentes do componente curricular. Em 2020, eu lanço, né? Um livro autoral que é o livro descolonizando saberes, mulheres negras na ciência, que é um livro que eu vou falar um pouco, né? Da, da questão da mulher negra, a partir da ótica do mundo, do feminismo negro. O movimento de mulheres negras no Brasil e no mundo a partir dessa perspectiva, vou trazer um pouco da minha história, né? Como que eu me constituo a partir desse lugar. Eh, de uma ancestralidade matrilinear né? da minha mãe, da minha avó, da minha bisavó, de mulheres negras, né? Que construíram esse espaço, essa possibilidade existencial, onde que eu acesso? É, e como que eu chego a ser professora, doutora da uma universidade, né? Então? É um livro que, além disso, eu também apresento, é, 43 mulheres das áreas, da área de ciências Biomédicas da matemática, nesse livro, é um livro, assim de exposição de uma intelectualidade negra, de mulheres negras, né? E por fim, o meu mais novo livro, que é o história preta das coisas, 50 invenções científicas tecnológicas de pessoas negras, que é um livro que eu já começo com (...) começa, obviamente com as invenções, né? Eu trago 25 invenções ancestrais africanas, e 25 invenções de pessoas negras na contemporaneidade, tanto pessoas africanas quanto pessoas africanas na diáspora. Depois eu falo um pouco, né? É da descolonização em afro-perspectiva, fala um pouco da filosofia Ubuntu. De uma cosmo-percepção africana bantufona, para a gente entender o que é a ciência no ocidente e por que que nos colocam fora dela, né? Fala um pouco desse processo de desumanização de pessoas negras, é da da, da, da generalização acidental, né? De um modo de ser, estar e pensar o mundo. Assim, pensando uma pluriversalidade da existência humana, então trago algumas questões mais de natureza filosófica neste último, nesse último livro. E, é isso é uma produção também autoral e que está super bacana.


Apresentador: Taí gente, os 6 livros de Bárbara Karine traduzindo todo, toda vivência, a militância de Bárbara Karine, inclusive a última obra que fala sobre as criações, né? Os feitos de pessoas negras que muitas vezes ficam desapercebido pela sociedade, né? Por nós como um todo, é parte do sistema de invisibilidade da população negra. E, Bárbara fala pra gente um pouco sobre a questão das opressões, né? Em seus discursos e debates estão sempre presentes, tentando inverter esses valores estabelecidos na sociedade. Quais são os principais entraves para a gente quebrar os paradigmas como, qual é o caminho que você aponta para isso?


Barbara: Essa questão das opressões, eu acho que é um, um problema estrutural, né? O racismo é um problema estrutural, do acidente, né? Um problema estrutural dessa constituição ocidental que a gente foi submetido, né? É, e aí o patriarcado, né? A homofobia, a transfobia, enfim. Aí o capacitismo né? São várias formas de opressão que o capitalismo se utiliza para se nutrir, né? Ele se estrutura a partir dessas categorias, e lutar contra isso é algo, é algo muito importante, mas a gente precisa compreender que essa luta precisa ser coletiva, né? Ela não é uma luta singular. Não é uma luta lacrativa, de poucos atores que despontam na área e que, que vão produzir conteúdo, né? Nesse sentido, unicamente, de autopromoção talvez, né? É uma luta coletiva no sentido de pensar o combate às estruturas de fato, né? E eu acho que como combater as estruturas, a gente combate a partir dos organismos estruturais da estrutura, né? Então é pensar sim, como que a gente, a gente, a gente constrói e organizações né? Aquelas de apostas, como os movimentos sociais, os movimentos sindicais, né? Os partidos políticos ou estruturas outras né? Assim, eu não acredito em nada disso, Bárbara. Eu penso que a gente precisa montar, sei lá, uma guarda negra, eu acho que a gente precisa montar uma outra estrutura coletiva dentro de uma ótica quilombista, né? Dentro de um entendimento outro para poder, para poder, combater, né? Essas estruturas. Óbvio que, que, pelos complexos sociais já dados, né? Então, onde é seu campo de atuação? É lá que você vai lutar, então você é um educado ou uma educadora, como e enquanto um educador, uma educadora, eu posso construir, né? Esse paradigma outro? É essa revolução no espaço da minha escola? No espaço da universidade? No espaço que eu atuo como professor, professora? Ah, você é uma pessoa que trabalha na saúde? Como que nesse espaço eu posso fazer isso, né? E sempre pensando nos mecanismos coletivos, né? Sempre pensando nessa ótica de fortalecimento, de auto-fortalecimento, né? Auto-fortalecimento, no sentido da sua comunidade, da comunidade que você representa, da comunidade, que, que lhe outorga essa possibilidade de, de fala, né? De sustentação de, um de, de um discurso, de uma pauta.


Apresentador: E bárbara, isso tem muito a ver com a questão da linguagem, o lugar de fala, né? O não lugar, a invisibilidade, não é mesmo? O que que você, que você acha?


Barbará: Eu Acredito que a linguagem eu o lugar de fala, pode sim contribuir, né? Para a democratização dos espaços, sobretudo os universitários. Que sempre nos fizeram acreditar que não são nossos. É com as pessoas efetivamente falando a partir de suas realidades. Às vezes a gente quer falar sobre relações étnico raciais, mas dentro de uma tentativa de empatia, a gente acaba por não abordar, porque compreendemos que é o lugar do outro, né? Pessoas brancas muitas vezes compreendem dessa forma, né? Racializando apenas a negritude e a população indígena, né? Não se compreendendo também como racializada socialmente, né? Então, nesse sentido, eu acredito que essas manifestações, né? Em todos os espaços de poder, mas fundamentalmente no espaço universitário, das vivências, das experiências, elas são muito importantes para a gente compreender as contradições, né? Que a sociedade nos apresenta aí pensarmos coletivamente, as formas de superação delas, né?


Apresentador: Bem, Bárbara, estamos caminhando agora para o final desta edição do podcast fragmento e eu quero deixar registrado aqui minha inteira gratidão com a sua participação em nosso, nesse programa, nesse projeto. Dizer que é uma honra imensa poder contar com, com a sua história para influenciar outras pessoas e até mesmo a nossa, que a gente vem trilhando e a 10 anos, enquanto livraria, mas, optamos agora passar a história das pessoas por mais esse meio de comunicação, o podcast, né? Que está à nossa disposição e a gente precisa usar da melhor forma possível para passar ideias que vão contribuir com o desenvolvimento de outras pessoas, né? É? Esse é o papel social da literatura, também né? É preservar a memória e construir o pensamento social, a partir das perspectivas do que a gente acredita e se dispõem a viver, não é isso? E, para finalizar mesmo, Bárbara, eu queria que você falasse um pouco mais desse projeto literário, né? História Preta das Coisas. Você já falou um pouco nas falas anteriores, mas eu queria que você abordasse um pouco mais, e aí deixar esse gostinho aí para quem quiser adquirir, entrar em contato com você, com a gente, enfim. Você pode falar um pouco mais?


Barbara: Sobre o história preta das coisas, é um projeto literário que, foi lançado um livro, que foi lançado esse ano de 2021, que é um livro no qual apresentou 50 invenções de pessoas negras, né? Ao redor do mundo, 25 ancestrais africanas e 25 contemporâneas, né? De pessoas africanas e afro diaspóricas. Nesse livro também a gente discute um pouco do porque a ciência é pensada, ocidentalmente como, sendo branca. Ah, androcêntrico, né? cisgênera, capacitista. Isso a partir de uma perspectiva Bantufana. Dos povos, dos povos bantus, né? A partir da filosofia Ubuntu. Discuto também neste livro um pouco sobre a decolonialidade e descolonização em afro-perspectiva, né? Mobilizando autores e autoras negras que desenvolveram categorias decoloniais que foram muito importantes para o desenvolvimento para as bases dessa perspectiva teórica com tudo, são historicamente apagados dentro do referencial teórico. E falo um pouco também sobre as perspectivas de educação para as relações étnicos-raciais, né? O que vem a ser uma educação afro-brasileira? O que vem a ser uma educação afrocêntrica? O que vem a ser uma educação anti racista, né? E apresento esse quadro aí como possibilidade de ensino, a partir dessa temática.


Apresentador: Bem, gente, essa foi mais uma edição do fragmento. O podcast da livraria Pandora. Voltamos na próxima semana com mais uma entrevista.Grande abraço e até lá.




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