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  • 20 de Novembro: Mais que Memória, um Projeto de Futuro

    1. Introdução — A Disputa pelo Tempo e pela Narrativa O 20 de Novembro não é apenas um feriado no calendário cívico; é um ato político de alta densidade. Trata-se de um rito de disputa temporal, uma interrupção consciente e necessária da narrativa oficial que, historicamente, tentou sequestrar o protagonismo negro na formação do Brasil. Em vez de uma pausa para o descanso, a data convoca à vigília: é o momento em que afirmamos coletivamente que a memória não é uma paisagem estática para contemplação — é um campo de batalha em constante tensão. Por mais de um século, as elites brasileiras tentaram consolidar a identidade nacional sobre a ilusão da “democracia racial” e sobre a ficção da “concessão benevolente” do 13 de maio. Naquele dia, a abolição jurídica foi assinada por mãos brancas, embora sua sustentação real tenha vindo do sangue e da insurgência de milhares que lutaram pela própria liberdade muito antes da Lei Áurea. A história celebrada pelo Estado sempre foi a da dádiva imperial, jamais a da conquista popular. O 20 de Novembro rompe essa lógica colonial. Ele desloca o centro de gravidade simbólico do mito da princesa redentora para a materialidade da luta quilombola. Não é sobre o que “fizeram por nós” — é sobre o que construímos apesar deles. É a data que reivindica Zumbi e Dandara não como figuras folclóricas, mas como faróis epistêmicos, reafirmando que a emancipação negra nunca foi caridade: foi, e continua sendo, conquista. Celebrar o 20 de Novembro é decretar uma ruptura com a pedagogia do esquecimento que naturalizou as desigualdades. É escolher, deliberadamente, uma outra genealogia de país. É o dia em que o Brasil, se tiver a coragem necessária, precisa decidir de que lado da história quer estar: do lado da casa-grande ou do lado do quilombo. 2. Desenvolvimento I — Palmares como Tecnologia Política (O Passado) Se a historiografia tradicional tenta, muitas vezes, reduzir Palmares a uma “fuga” ou um refúgio de desesperados, é porque as estruturas de poder compreendem — e temem — o verdadeiro alcance de seu legado. O Quilombo dos Palmares não foi uma anomalia ou um “acidente social”: foi uma instituição política monumental. Tratava-se de uma república multiterritorial, plural, economicamente articulada, militarmente organizada e culturalmente complexa. Resistiu por quase um século — mais que a União Soviética, mais que o Terceiro Reich, mais que diversos regimes celebrados nos livros de História ocidental. Abdias do Nascimento, ao formular o conceito de Quilombismo, reconheceu em Palmares a “primeira democracia efetiva das Américas”. E não o fez por licença poética, mas por rigor sociológico e histórico. A governança coletiva, a distribuição funcional de tarefas, as alianças geopolíticas, os sistemas autônomos de abastecimento e a defesa territorial evidenciam que o quilombo era muito mais que um esconderijo: era um projeto alternativo de sociedade. Na mesma linha, o sociólogo Clóvis Moura compreendeu os quilombos como a “negação radical do sistema escravista”. Ao se libertarem, os negros escravizados não apenas fugiam da violência imediata; eles produziam a erosão do sistema colonial e gestavam outro mundo possível. Palmares demonstra, de forma incontornável, que a população negra nunca aceitou a condição de “coisa” (reificação) imposta pela colonialidade. Foi — e sempre será — sujeito político ativo. Em sua própria existência, Palmares já era uma afirmação revolucionária: o Brasil poderia ter sido outro. E esse "outro Brasil" continua pulsando, insistindo e sobrevivendo nas margens e nos centros. 3. Desenvolvimento II — O Conceito de Aquilombamento (O Presente) A intelectual Beatriz Nascimento nos legou uma das chaves mais poderosas para ler o presente: o quilombo não é (apenas) um lugar no mapa geográfico. É um lugar no corpo. É gesto, é memória, é território afetivo, é ética comunitária. O quilombo é continuidade histórica; é, nas palavras dela, a "paz" entendida como a possibilidade de existir plenamente. Aquilombar-se, portanto, é tomar Palmares como tecnologia viva e atualizá-la nas trincheiras do agora. Hoje, o fenômeno do aquilombamento manifesta-se nas frestas do sistema: nas universidades públicas que, tensionadas pelas cotas, agora recebem a intelectualidade negra que antes lhes era interditada; nos movimentos sociais que se reorganizam para enfrentar a necropolítica do Estado; nas mulheres negras que reconfiguram a literatura brasileira e ocupam espaços de prestígio como a Academia Brasileira de Letras; nas redes de cuidado que reinventam a saúde mental e a cultura periférica; nas livrarias, editoras e coletivos que funcionam como territórios de proteção e imaginação — como a própria Livraria Pandora. Aquilombar-se na contemporaneidade é recusar o isolamento imposto pelo racismo estrutural e pela lógica individualista neoliberal. É, sim, uma estratégia de sobrevivência, mas, acima de tudo, de reexistência. É a antítese do projeto colonial que sempre apostou na nossa dispersão para nos enfraquecer. Criar comunidade onde o Estado produz morte e tecer sentido onde o sistema produz silenciamento é a nossa maior vitória. Aquilombar-se é método político de futuro — um exercício diário e coletivo de permanência. 4. Desenvolvimento III — A Dívida e o Projeto (O Futuro) A “Consciência Negra” não pode ser reduzida à nostalgia ou ao folclore. Ela é diagnóstico e exigência. O sociólogo Florestan Fernandes foi cirúrgico ao afirmar que a abolição no Brasil foi uma "revolução burguesa" inconclusa — e assim permanece. A escravidão deixou de ser legal, mas nunca deixou de ser estrutural. O 20 de Novembro nos obriga a olhar para o espelho — e para as estatísticas — e reconhecer que o país ainda opera sob a lógica operacional da casa-grande. O encarceramento em massa, a letalidade policial que tem cor e CEP definidos, a desigualdade de renda abissal e a segregação urbana (com cidades-empresa e territórios racializados) não são acidentes de percurso. São continuidades. São escolhas políticas de Estado. O racismo é o algoritmo que reorganiza o Brasil diariamente, decidindo desde quem tem acesso ao saneamento até quem tem direito à vida. Por isso, falar de 20 de Novembro é falar, inevitavelmente, de reparação, de redistribuição de poder e de democracia real. Não existe democracia possível convivendo com um apartheid socioeconômico. Não existe futuro viável alicerçado no genocídio da juventude negra. O antirracismo, portanto, não é uma pauta "identitária" ou restrita a um grupo — é um projeto civilizatório. É a única via capaz de romper com as estruturas arcaicas que mantêm o Brasil preso ao atraso e à barbárie. A luta antirracista é, em última instância, uma luta pela fundação de um país minimamente ético e decente para todos. 5. Conclusão — O Futuro é Ancestral Olhar para Zumbi, para Dandara e para a experiência de Palmares não significa romantizar o passado. Significa escolher um horizonte ético. Significa compreender que, para pensar 2026, 2030 ou qualquer futuro, precisamos reconhecer que há uma genealogia negra de projeto político no Brasil. Uma genealogia que não foi derrotada, apenas silenciada. Mas que resiste e insiste em brotar. Como nos lembram os pensadores contemporâneos, a ancestralidade não é retorno ao passado: é bússola para o amanhã. O 20 de Novembro não pede festa; pede implicação. Pede responsabilidade histórica. Exige que a consciência negra se converta em práxis cotidiana de ruptura, transcendendo a efeméride do calendário. Se o Brasil quiser verdadeiramente se reinventar, terá de encarar esta verdade: Palmares não foi. Palmares é. E Palmares será!

  • Pensadores Negros Essenciais: A Améfrica Ladina de Lélia Gonzalez

    1. O Terremoto Epistemológico No panteão do pensamento social brasileiro, o nome de Lélia Gonzalez é um terremoto epistemológico. No coração do Novembro Negro, revisitar sua obra não é um ato de homenagem, mas uma necessidade estratégica e urgente para quem busca ferramentas intelectuais para descolonizar o presente. Lélia não foi apenas uma ativista; ela foi uma formuladora de teorias, uma intelectual radical que recusou as lentes importadas — fosse o marxismo ortodoxo, que reduzia tudo à classe, ou o feminismo eurocêntrico, que ignorava a raça — para entender o Brasil. Sua obra é um ato de insurgência intelectual. Ela compreendeu que o Brasil não podia ser explicado sem centralizar a experiência negra, e mais especificamente, a experiência da mulher negra. Seu legado é vasto, mas dois de seus conceitos centrais demonstram sua genialidade em romper com o epistemicídio e reescrever o mapa da nossa identidade: "Amefricanidade" e "Pretuguês". 2. A Invenção da "Amefricanidade": Dinamitando o Mapa Colonial Lélia Gonzalez dinamitou o conceito de "América Latina". Ela argumentava que essa terminologia era uma ficção colonial, uma invenção eurocêntrica que, ao nos definir pela língua do colonizador (latina), apagava violentamente os dois pilares que verdadeiramente formaram o continente: o indígena e, sobretudo, o africano. O termo "América Latina" nos irmana com nossos colonizadores (Espanha, Portugal, França) e nos afasta de nossos irmãos da diáspora no Caribe não-latino ou na América do Norte. Em seu lugar, ela propõe a "Amefricanidade". Somos, segundo ela, uma "Améfrica Ladina". Essa não é uma simples troca de palavras; é uma reorientação geográfica, histórica e política. Geográfica: Ela nos força a ver o Atlântico Negro, e não o Atlântico europeu, como o oceano-matriz da nossa modernidade. Nossas conexões culturais, políticas e afetivas estão mais próximas de Lagos, Havana e Kingston do que de Lisboa ou Paris. Histórica: Ela recentraliza a diáspora africana não como um "apêndice" da história do continente, mas como seu evento fundador. Política: O termo "Ladina" é crucial. Ele não se refere apenas à origem africana (Améfrica), mas ao processo de ter sido "latinizado" (forçado a falar línguas latinas) e ter subvertido essa imposição. A "Améfrica Ladina" é, portanto, um espaço de conflito, sincretismo e resistência. Ao se autodenominar "amefricana", Lélia nos convida a reconhecer que a cultura brasileira — da língua à culinária, da música (como o samba) à religião (como o Candomblé) — é fundamentalmente africana em sua estrutura. A identidade nacional não é uma "mistura" vaga e harmoniosa, como no mito da democracia racial, mas uma base negro-africana sobre a qual outras influências se assentaram. 3. O "Pretuguês": A Língua como Território de Resistência O segundo golpe de Lélia contra a colonialidade foi no idioma. Enquanto a academia tradicional e a gramática normativa discutiam a "língua portuguesa no Brasil" — tratando as variações populares como "erros" ou "corrupções" —, Lélia escutava as ruas, as cozinhas e os terreiros. Ela percebeu que o que falamos não é português; é "Pretuguês". Ela demonstrou como as estruturas linguísticas africanas (especialmente do iorubá e do quimbundo) não apenas "influenciaram" o idioma, mas moldaram sua sintaxe, seu ritmo e seu léxico. Não se trata apenas de palavras óbvias como "caxumba", "moleque" ou "samba". Trata-se da própria estrutura frasal: A supressão do "r" nos infinitivos ("Eu vou comê", "Vamos falá"). O uso de dupla negação ("Não vou lá, não"). A cadência e a musicalidade da nossa fala. Lélia vai além: ela identifica a figura central dessa revolução linguística: a mulher negra, a "mãe preta" ou a "babá". Ela argumenta que foi essa mulher, ao cuidar dos filhos da casa-grande, quem efetivamente "africanizou" a língua da elite branca. O "Pretuguês" é, portanto, a língua-mãe do Brasil, ensinada pela mulher negra a toda a nação. Rotular essa língua de "errada" é um ato de racismo epistêmico. Lélia identifica o "Pretuguês" como um ato de resistência cultural e reexistência. Foi a forma que os povos escravizados encontraram para, mesmo sob a imposição da língua do senhor, contrabandear suas próprias visões de mundo. O "Pretuguês" é a marca indelével da África naquilo que o colonizador julgava ser seu maior trunfo: a língua. 4. Um Legado para o Presente: A Interseccionalidade na Prática Muito antes do termo "interseccionalidade" ser cunhado por Kimberlé Crenshaw, Lélia Gonzalez já o praticava com maestria. Ela foi pioneira ao articular a tríplice opressão de raça, classe e gênero, denunciando o que ela chamava de "racismo e sexismo por omissão". Sua crítica era dupla e implacável: Contra o Movimento Negro (masculinista): Ela apontava como os homens negros, ao focarem apenas na raça, reproduziam o machismo e invisibilizavam as demandas específicas das mulheres negras. Contra o Movimento Feminista (branco): Ela denunciava como as feministas brancas, ao focarem apenas no gênero, ignoravam a raça e tomavam sua experiência de mulher branca de classe média como universal, praticando o que ela chamava de "imperialismo" dentro do feminismo. Para Lélia, a mulher negra não era apenas uma "vítima" triplamente oprimida. Ela era o "locus" central da contradição brasileira e, por isso mesmo, a vanguarda da transformação. Ela é a figura que, por estar na base da pirâmide, sintetiza todas as opressões do sistema e, ao mesmo tempo, é a principal guardiã da cultura (como visto no "Pretuguês"). 5. Conclusão: Parar de Pedir Licença Estudar Lélia hoje é mais do que celebrar o Novembro Negro. É adquirir as lentes corretas para entender o Brasil. Sua teoria da "Amefricanidade" é uma ferramenta decolonial poderosa que nos permite romper com a subalternidade intelectual. Lélia Gonzalez nos ensinou a parar de pedir licença ao pensamento europeu. Ela nos deu a coragem de afirmar que as teorias mais potentes para explicar nossa realidade não virão de fora, prontas para importação. Elas nasceram e nascem aqui, forjadas na luta, na dor, na criatividade e na genialidade de intelectuais-ativistas como ela.

  • O Custo do Silêncio: O Racismo Estrutural no Orçamento Público

    1. Onde o Dinheiro Declara Prioridades "O orçamento é a peça de lei mais política de todas, pois revela onde o Estado investe e, consequentemente, em quem ele investe." Essa máxima transcende a técnica financeira; ela desnuda uma verdade incômoda: o orçamento público é o espelho mais fiel das hierarquias de uma nação. O dinheiro, com sua objetividade implacável, é o que — e quem — o Estado considera digno de investimento. No Brasil, esse espelho reflete um país profunda e intencionalmente racializado, onde a promessa constitucional de "redução das desigualdades" se desfaz na execução orçamentária. Os dados são a prova do abismo: estudos de monitoramento indicam que o investimento per capita em saneamento básico em áreas majoritariamente negras é até cinco vezes menor do que os gastos com o aparato de segurança e sistema prisional nessas mesmas periferias. Onde a Constituição assegura a cidadania, a política fiscal reforça a segregação territorial e racial. A evidência empírica do IBGE é contundente: a população negra continua sendo a principal vítima da ausência de esgoto tratado, educação de qualidade e segurança habitacional. A contradição é mais do que gritante — é moralmente insustentável: o Estado investe pesadamente na manutenção da ordem (repressão) e dramaticamente pouco na produção da vida (infraestrutura e direitos). Tese: O orçamento público brasileiro não é neutro; ele é o principal mecanismo de manutenção do racismo estrutural, pois organiza a escassez nos territórios negros e prioriza a punição e o controle em detrimento da reparação e do investimento em dignidade. 2. O Mecanismo da Exclusão: Transparência e Alocação A Invisibilidade como Estratégia O ciclo do racismo orçamentário não é um erro de cálculo, mas uma estratégia institucional. Ele se inicia na invisibilidade: a maior parte das Leis Orçamentárias Anuais (LOA) e dos Planos Plurianuais (PPA) não exige o desagregamento racial dos gastos públicos. Essa ausência não é acidental, como aponta o Fórum Brasileiro de Segurança Pública; é o primeiro mecanismo da exclusão. Sem transparência, a desigualdade se torna invisível aos olhos da lei — e o que é invisível, o Estado não é legalmente obrigado a corrigir. A fragilidade de órgãos como o SINAPIR (Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial) em influenciar o ciclo orçamentário é uma falha que garante a persistência do status quo. A Necropolítica do Investimento Onde o dinheiro vai, a vida é precificada. O filósofo Achille Mbembe descreve a necropolítica como o poder de determinar quem pode viver e quem deve morrer. No Brasil, essa decisão é frequentemente tomada pela planilha orçamentária. Quando o Estado destina recursos vultosos ao aparato de repressão (polícia, presídios) e reduz drasticamente o investimento em saneamento, moradia e educação — sobretudo em áreas negras —, ele pratica uma necropolítica orçamentária. Como demonstra a análise de execução, o investimento público falha em combater a pobreza; ele a administra, a cerca e, por fim, a criminaliza (Foucault, 1987). Nesse sentido, o orçamento não é apenas uma ferramenta de gestão financeira, mas um campo de disputa racial e moral, onde se decide o verdadeiro alcance da cidadania. 3. O Custo Humano e a Dívida Histórica O Dinheiro e as Vidas Para o SIMIR, traduzir números em corpos e vidas é um imperativo ético. Cada real negado à saúde pública nas periferias significa a manutenção de estatísticas trágicas, como a mortalidade materna entre mulheres negras, que é quase o dobro da observada entre mulheres brancas (Ministério da Saúde). Cada verba cortada da infraestrutura se traduz em doenças infecciosas e exposição à poluição, como mostram dados da Fiocruz e do IBGE. Isso tem um nome claro: racismo ambiental, conceito que revela como as desigualdades raciais e territoriais se entrelaçam na distribuição desigual de riscos, poluição e infraestrutura. A precariedade das condições de vida em territórios negros não é uma fatalidade administrativa, mas o resultado direto de um padrão orçamentário que prioriza o controle em detrimento do cuidado. A Dívida que se Renova Cada ciclo fiscal renova, com juros, a dívida histórica do Estado brasileiro com a população negra. O legado da escravidão, que construiu as bases econômicas do país, é reforçado pelas assimetrias orçamentárias. O que deveria ser instrumento de reparação histórica converte-se em mecanismo de manutenção da exclusão. As Leis Orçamentárias Anuais (LOAs) e Planos Plurianuais (PPAs) perpetuam a desigualdade sob o manto da legalidade. Assim, o dinheiro que deveria ser usado para financiar a reparação social da população é, ironicamente, utilizado para financiar a própria estrutura que produz o racismo e a desigualdade. 4. A Resposta Necessária: O IRO e a Fiscalização Ativa O Desafio para o Estado O combate ao racismo estrutural exige a institucionalização da justiça orçamentária. É necessário que o critério racial seja obrigatório no planejamento, na execução e na fiscalização das finanças públicas. É nesse horizonte de intervenção que se insere o Índice de Impacto Racial do Orçamento (IRO). O IRO, inspirado em ferramentas internacionais como o REIA (Racial Equity Impact Assessment), transforma a prestação de contas em um ato político e antirracista. O Veredito dos Dados O IRO opera em três eixos de controle: Transparência e Mensuração: Obriga a inclusão de indicadores de impacto racial em toda ação orçamentária. Classificação de Impacto: Avalia se cada política é progressiva (reduz desigualdade), neutra ou regressiva (aumenta desigualdade). Obrigatoriedade de Correção: Exige que gastos classificados como regressivos sejam reavaliados e compensados com medidas de equidade. A implementação do IRO depende do fortalecimento do SIMIR, que fornece a base empírica e territorializada. O SIMIR transforma o discurso em diagnóstico técnico, e o diagnóstico em ação concreta. Encaminhamentos e Participação Popular Para solidificar essa mudança, o caminho passa por: Cotas orçamentárias para territórios de alta vulnerabilidade; criação de conselhos de fiscalização popular com poder de deliberação sobre a execução; sanções administrativas para gestores que omitirem dados de impacto racial; e integração imediata do SINAPIR e do SIMIR aos processos de elaboração e avaliação orçamentária. 5. O Imperativo da Justiça Econômica O orçamento é o coração pulsante do Estado; é onde a democracia se realiza ou se nega. Onde o dinheiro não chega, o Estado também não chega. E onde ele chega em excesso, é geralmente para reprimir. A justiça orçamentária é, portanto, a forma mais palpável e imediata de justiça racial. A Constituição de 1988 prometeu igualdade, mas somente a redistribuição efetiva de recursos poderá torná-la real. O orçamento deve deixar de ser instrumento de exclusão e se converter em uma ferramenta de reparação. Nesse esforço, o SIMIR emerge como o olho público capaz de iluminar o que as planilhas tentam esconder: o padrão racial da distribuição de recursos. Com ele, os dados se tornam a linguagem da resistência e a análise técnica se converte em instrumento político. Lutar por um orçamento justo é lutar por vida, saúde e educação. É lutar contra a lógica que transforma territórios negros em zonas de ausência e controle. É exigir que o Estado pague, com justiça e dignidade, a dívida que ele próprio reconhece, mas insiste em postergar. O custo do silêncio é medido em corpos — e a conta já passou de todos os limites morais. Romper esse silêncio é o imperativo ético, político e econômico de uma nação que ainda ousa se dizer democrática.

  • A Cor Insubmissa: Ana Maria Gonçalves e a Ruptura Epistêmica na ABL

    "Não é sobre ausência de vozes. É sobre um projeto de silenciamento." - Djamila Ribeiro A eleição de Ana Maria Gonçalves para a cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras (ABL), anunciada nesta sexta-feira (7 de novembro), é um evento que transcende a simples ocupação de uma vaga. Como a notícia aponta, o fato de ela ser a primeira mulher negra a ingressar na instituição em seus quase 130 anos de história não é um rodapé biográfico, mas a própria essência do evento. Este "legado" não é apenas sobre a imortalidade de uma autora, mas sobre a mortalidade de uma estrutura de exclusão secular. A entrada de Gonçalves na ABL é, portanto, menos uma concessão da instituição e mais uma ruptura epistêmica — uma fratura impulsionada pela força de sua obra e pelo avanço inegável do letramento racial na sociedade. O Panteão e a Norma: A ABL como Ferramenta de Epistemicídio Para compreender a magnitude deste legado, é preciso analisar o que a ABL representa. Fundada em 1897, em moldes da Académie Française, a Academia se consolidou como o "panteão" da intelectualidade nacional. Contudo, como qualquer instituição, ela é um campo de poder (no sentido bourdieusiano) que detém o monopólio da consagração, refletindo e sacramentando as hierarquias sociais do país. Seu quadro de "imortais" tem sido, esmagadoramente, o retrato da elite dominante: branca, masculina e sudestina. A ausência de mulheres negras por 128 anos não foi um acaso ou uma infeliz coincidência; foi um projeto de epistemicídio. Foi a manifestação estética da colonialidade do saber: a lógica colonial que define quais vozes são "universais" (as brancas) e quais são "particulares" ou "folclóricas" (as negras e indígenas). A ABL, ao silenciar sistematicamente a produção negra, não estava apenas excluindo pessoas; estava assassinando saberes, cosmologias e formas de narrar o Brasil. A Obra como Ferramenta de Reexistência O legado se torna ainda mais potente quando analisamos quem é Ana Maria Gonçalves. Ela é a autora de "Um defeito de cor" (2006), um dos romances mais importantes da literatura brasileira contemporânea. A obra é, em si, uma ferramenta de ruptura. É uma genealogia da diáspora, um épico monumental que refaz a trajetória atlântica através da vida de Kehinde (ou Luísa Mahin), figura central na Revolta dos Malês. O livro é um ato de aquilombamento literário: ele resgata uma memória deliberadamente apagada pela historiografia oficial, centra a agência de uma mulher negra e reescreve o Brasil a partir de uma perspectiva de reexistência. A eleição de Ana Maria Gonçalves significa que a ABL não está apenas recebendo uma pessoa física; ela está sendo forçada a canonizar a contranarrativa que ela mesma foi criada para apagar. A instituição que por mais de um século ignorou a produção intelectual negra agora concede sua maior honraria à obra que denuncia precisamente as consequências desse apagamento. O Legado em Disputa: Entre a Reparação e a Assimilação Um ensaio robusto exige um olhar crítico sobre a celebração. A eleição de Gonçalves é uma vitória inegável, fruto da pressão de um novo cenário intelectual que não tolera mais a exclusão explícita. No entanto, ela também levanta questões complexas. O Risco do Tokenismo: A presença de uma mulher negra, por mais brilhante que seja, não desmantela o racismo estrutural da instituição. O legado só será transformador se a sua presença for um ponto de inflexão, e não um álibi para a manutenção da norma. Como nos alerta Fanon, a armadilha da assimilação é a burguesia nacional (negra) ser convidada a gerir a estrutura colonial sem, contudo, destruí-la. Reparação e Dívida Histórica: A notícia celebra a "primeira", mas o verdadeiro escândalo são os "130 anos". Este evento é uma reparação histórica tardia. É o reconhecimento, grotescamente atrasado, de que a literatura brasileira sempre foi produzida por vozes negras — vozes como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Lélia Gonzalez —, mesmo que a ABL fingisse não vê-las. A Cadeira 33: O simbolismo de ela ocupar a cadeira de Evanildo Bechara — um gramático, representante máximo da norma e da tradição — é potente. Sinaliza uma mudança de guarda: da ênfase no logos (a forma, a norma, a gramática) para a valorização do pathos e do ethos (a narrativa, o trauma, o conteúdo histórico-social). Conclusão: A Imortalidade da Luta O legado de Ana Maria Gonçalves na ABL não está consolidado no momento de sua posse; ele começa ali. Sua eleição é a materialização de uma disputa pela memória nacional. Ela insere no "panteão" a voz que narra a senzala, a revolta e a complexidade do ser negro no Brasil. Este não é um legado de pacificação, mas de conflito produtivo. Ana Maria Gonçalves não chega à ABL para ser assimilada ou pacificada; ela chega para desestabilizar e descolonizar. O seu "defeito de cor" se torna, agora, a cor indelével da própria Academia, forçando-a, enfim, a confrontar o Brasil real.

  • 📣Edital Pandora de Ensaios 2026: Convocatória para o Pensamento Crítico Independente

    A Livraria Pandora tem o prazer de lançar sua primeira chamada aberta para ensaios inéditos. Nosso blog consolidou-se como um projeto editorial e um espaço de intervenção pública. Mais do que resenhas, publicamos análises sociológicas, críticas decoloniais e investigações sobre as estruturas que moldam nossa sociedade. Agora, abrimos este espaço para novas vozes. Convocamos escritores, pesquisadores, ativistas e pensadores independentes que utilizam a escrita como ferramenta de análise crítica e transformação social a contribuir com este debate. 🎯 Nosso Objetivo O objetivo desta convocatória é selecionar ensaios inéditos que dialoguem diretamente com o nosso "Núcleo Editorial". Buscamos fortalecer a circulação de ideias, ampliar a diversidade de perspectivas e construir um acervo de pensamento crítico alinhado com as lutas do nosso tempo. 🧭 Linhas Editoriais (Categorias para Submissão) Os ensaios submetidos devem, obrigatoriamente, dialogar com uma das 11 categorias temáticas do nosso Núcleo Editorial. Buscamos textos que: 1. Teoria Sociológica Buscamos ensaios que coloquem a teoria sociológica em prática. Como as ferramentas da Teoria Crítica (Adorno, Horkheimer) ou do Interpretativismo (Geertz) explicam fenômenos atuais como a pós-verdade ou a plataformização da vida? Quais são os limites dessas teorias clássicas diante das questões decoloniais? Aceitamos tanto introduções acessíveis a grandes teóricos quanto reexames críticos de seus legados. 2. Pensamento Social Brasileiro Esta categoria convida a um reexame do Brasil. Buscamos ensaios que desafiem as narrativas hegemônicas (como o mito da democracia racial, o 7 de Setembro como ato heroico, ou a "brasilidade" como um projeto de apagamento). Queremos análises sobre como a identidade nacional foi forjada, quem foi silenciado nesse processo e como pensadores (como Lélia Gonzalez, Guerreiro Ramos ou Abdias do Nascimento) oferecem caminhos para uma nova interpretação do país. 3. Justiça, Estado e Sociedade O foco aqui é a análise estrutural do poder e o centro de nossa pesquisa sobre indicadores antirracistas. Convidamos a ensaios que investiguem o como o racismo e a desigualdade operam. Como o Estado atua (ou se omite) através do sistema de justiça, da segurança pública (letalidade policial), da saúde (mortalidade materna) ou da educação (escolas cívico-militares)? Análises sobre indicadores (corporativos ou públicos), políticas públicas e os mecanismos de necropolítica são o cerne desta categoria. 4. Cidades, Espaço e Desigualdade Como a desigualdade social se inscreve na geografia das cidades? Buscamos ensaios sobre racismo ambiental, a luta pelo direito à cidade, os processos de gentrificação e, crucialmente, a sociologia da mobilidade. Como o tempo e o custo do transporte (especialmente para a população universitária e trabalhadora) funcionam como barreiras de acesso e perpetuadores da exclusão? 5. Pensamento Negro e Decolonial Apresentem e debatam conceitos, histórias e pensadores (como Fanon, Lélia Gonzalez, Abdias do Nascimento) que fundamentam a epistemologia antirracista. Ensaios sobre espiritualidades e religiões de matriz africana ou indígena como pilares de resistência, identidade e produção de conhecimento são centrais para esta categoria. 6. Política, Afeto e Subjetividade Como as estruturas políticas adoecem e como o afeto pode curar? Esta categoria explora a intersecção entre o social e o psíquico. Buscamos ensaios que tratem o amor, o cuidado, o luto e o trauma não como experiências puramente individuais, mas como fatos sociais e políticos. Diálogos entre sociologia, psicanálise e o legado de pensadoras como bell hooks são o foco aqui. 7. Pedagogia Crítica e Sociedade O que é educar em uma sociedade desigual? Buscamos reflexões que atualizem o legado de Paulo Freire (como a pedagogia do afeto ou a alfabetização crítica). Queremos também análises sobre a função social de professores, bibliotecários e mediadores de leitura, e como a educação, formal ou informal, pode atuar como uma prática de cuidado, libertação e antirracismo. 8. Arte, Estética e Política Aqui, a cultura é analisada como arma. Buscamos "etnografias" críticas da música popular (como o rap dos Racionais ou o samba de Leci Brandão), análises do cinema (como o Cinema Novo), ou da literatura (como a "escrevivência") que revelem como a arte pode tanto reforçar o status quo quanto ser uma ferramenta de insurgência. O que a estética dos nossos monstros (do Saci ao Gótico) ou de nossos manifestos diz sobre nós? 9. Movimentos Sociais e Resistência Como a sociedade civil se organiza para lutar por justiça? Esta categoria busca análises sobre o ativismo contemporâneo e histórico. Queremos ensaios sobre a luta por direitos LGBTQIA+, o movimento negro, o feminismo interseccional, as feiras literárias de periferia, ou as táticas de mestres da cultura popular. Como a resistência se articula no dia-a-dia e na prática coletiva? 10. América Latina em Foco Para além do "umbigo" brasileiro, queremos ensaios que conectem nossas "veias abertas" às de nossos vizinhos. Como os traumas das ditaduras (como o 11 de Setembro chileno), os processos de colonização e as lutas populares (como a voz de Mercedes Sosa ou a Revolução dos Cravos e seu impacto nas colônias africanas) criam um destino compartilhado? Buscamos análises que pensem o Brasil como parte da América Latina. 11. Crítica do Tempo Presente Este é o espaço para a "sociologia do agora". Buscamos ensaios que apliquem a Teoria Crítica (como Adorno) para analisar a indústria cultural hoje: o Big Brother Brasil, as novelas, o futebol-negócio, a ansiedade vendida como entretenimento nas redes sociais. Como a mídia (tradicional ou digital) constrói, espelha e, por vezes, distorce o imaginário racial e social? 📜 Normas para Submissão Público: A chamada é aberta a todos os interessados (estudantes de graduação e pós-graduação, pesquisadores, professores, ativistas, escritores independentes, etc.). Ineditismo: Os textos devem ser inéditos, não tendo sido publicados anteriormente em outros blogs, revistas ou livros. Formato: Os ensaios devem ter entre 800 e 1500 palavras. Arquivo: O texto deve ser enviado em formato .doc ou .docx, fonte Times New Roman 12, espaçamento 1.5. Citações e referências devem seguir as normas da ABNT. Identificação: No corpo do e-mail, o autor deve incluir uma breve biografia (máximo 50 palavras) e seus links de redes sociais (opcional). O arquivo de texto não deve conter identificação para garantir uma avaliação cega. 📬 Envio e Prazos Os textos devem ser enviados para o e-mail: livrariapandora@gmail.com O assunto do e-mail deve seguir o padrão: "CHAMADA DE ENSAIOS 2026 - [Nome do Autor] - [Categoria]" Data limite para submissão: 31 de Março de 2026 🗳️ Processo de Seleção A seleção será realizada pela curadoria editorial da Livraria Pandora, com base nos seguintes critérios: Originalidade e profundidade da análise. Aderência à linha editorial (antirracista, crítica, decolonial) do blog. Clareza, qualidade da escrita e rigor argumentativo. Relevância para o debate público atual. Os autores dos textos selecionados serão contatados por e-mail e seus ensaios serão publicados no blog ao longo de 2026, com os devidos créditos. Aguardamos sua contribuição para, juntos, fazermos do pensamento uma ferramenta de luta. Atenciosamente, Helbson de Ávila Editor e Curador | Livraria Pandora

  • Cultura e Ciência: Territórios de disputa e ferramentas de reexistência

    "Toda cultura é, primeiramente, uma forma de intervir no mundo." - Fanon Celebrar o Dia Nacional da Cultura e da Ciência, neste 5 de novembro, é mais do que um gesto simbólico. É um convite à reflexão radical sobre o sentido profundo dessas palavras em um país que ainda luta para reconhecer a pluralidade de suas vozes e saberes. À primeira vista, o imaginário coletivo pode associar a data a museus, teatros, universidades e laboratórios — os espaços onde o "conhecimento" e a "criação" parecem habitar. Mas, se olharmos de forma crítica, veremos que cultura e ciência não se limitam a instituições; elas são a própria expressão e o motor do poder. Ambas são territórios epistemológicos: campos de batalha onde se define não apenas o que sabemos, mas quem tem o direito de saber e qual saber é considerado legítimo. A Cultura como braço Estético da hegemonia A cultura, longe de ser um campo neutro, sempre foi o território por excelência do conflito simbólico e político. Como apontaram Theodor Adorno e Max Horkheimer, na célebre crítica à Indústria Cultural, o capitalismo avançado transformou a arte em mercadoria e o entretenimento em um sofisticado mecanismo de controle social. Esta é a cultura como hegemonia, no sentido gramsciano: o "braço estético" do poder, que opera não pela força bruta, mas pela sedução e pelo consenso. Nessa lógica, o lazer é domesticado e a imaginação é confinada dentro dos moldes do consumo. O cinema, a música, a moda e as redes sociais passam a operar como engrenagens de uma máquina que padroniza o gosto, define o que é belo (geralmente, o branco e europeu) e, sobretudo, o que é aceitável. Celebrar a cultura, nesse contexto, exige perguntar: estamos celebrando a criação ou o conformismo? Estamos celebrando a diversidade ou a sofisticação da colonialidade? A Insurgência da reexistência: O Saber que emerge das Margens Entretanto, se há um lado da cultura que reproduz o poder, há outro que o subverte. É justamente nesse espaço de fissura, na contradição do sistema, que emergem as expressões que reescrevem o mundo a partir das margens. A cultura popular, negra, indígena, periférica e feminista tem sido, ao longo da história, um ato de insurgência, uma forma de dizer "nós existimos" diante de um sistema que insiste em silenciar. O samba, nascido entre senzalas e cortiços, transformou a dor da diáspora em ritmo, memória e resistência. O hip-hop, com sua poética urbana, tornou-se o jornal da periferia, denunciando a violência do Estado e as desigualdades estruturais com mais contundência do que muitos editoriais da grande imprensa. Na literatura, Conceição Evaristo nos ensinou que escrever é também viver — ou melhor, "escreviver". Sua escrita não é apenas literatura; é um método de produção de saber, herdeiro de vozes ancestrais que a história oficial tentou apagar, mas que ressurgem pela força da palavra. Da mesma forma, o funk, tantas vezes criminalizado, se ergue como a epistemologia do corpo. Num contexto que, como teorizou Fanon, busca disciplinar e alienar o corpo negro, o funk é a retomada indisciplinada desse corpo, afirmando o direito à festa, à voz e ao desejo. Ciência: da Legitimação do Poder ao Epistemicídio É aqui que a Cultura e a Ciência se encontram no mesmo campo de batalha. A "Ciência" que celebramos hoje, em seu modelo ocidental, positivista e universalista, foi a principal ferramenta de legitimação da ordem colonial e racial. Foi a "ciência" que mediu crânios para justificar a escravidão; foi a "ciência" da eugenia que definiu políticas de embranquecimento; foi a "ciência" que classificou saberes ancestrais como "superstição" ou "feitiçaria". Este é o epistemicídio, como conceitua Boaventura de Sousa Santos: o assassinato deliberado de formas de conhecimento. Quando a ciência se fecha em si mesma, isolada em laboratórios e jargões técnicos, ela corre o risco de reproduzir as hierarquias do mesmo sistema que diz investigar. Ela opera com a mesma lógica da Indústria Cultural: define um padrão (o método científico ocidental) e descarta o resto. A Desobediência Epistemológica: O futuro da luta Nesse sentido, cultura e ciência são irmãs de uma mesma genealogia emancipatória, quando se propõem a isso. Ambas nascem da curiosidade humana e do desejo de compreender o mundo — mas também da necessidade de transformá-lo. Uma ciência descolonizada, portanto, não é apenas aquela que "dialoga" com os saberes tradicionais. É aquela que reconhece o valor epistêmico da pajelança indígena, da tecnologia de cura dos terreiros, e que entende que o conhecimento não é monopólio de universidades, mas um bem comum da humanidade. Neste Novembro Negro, a celebração da cultura e da ciência deve se converter em gesto político e ético. É tempo de compreender que, para os povos historicamente subalternizados, a arte e o saber nunca foram luxo — foram sobrevivência. Foi linguagem cifrada de liberdade, forma de manter viva a memória dos que vieram antes e de sonhar futuros possíveis. Em um país onde a necropolítica e o epistemicídio ainda definem quem tem o direito de viver e de saber, criar e pesquisar são atos de resistência. Que o 5 de novembro não seja, portanto, apenas uma data comemorativa, mas um ato de desobediência epistemológica. Que celebremos as culturas que inquietam, as ciências que libertam, as artes que descolonizam nosso olhar e os saberes que reconstroem o mundo. Porque a verdadeira cultura não nos adormece — nos desperta. E a verdadeira ciência não apenas explica o real — ela o transforma.

  • Começou o Fim de Ano Mágico Pandora: 3 Presentes Para Celebrar 2025!

    Este não é um fim de ano comum. É o Fim de Ano Mágico Pandora! 🦉✨ O fim do ano é um tempo de balanço, de reflexão, de fechar ciclos e, claro, de celebrar. É o momento em que olhamos para as leituras que nos transformaram e já sonhamos com as que virão. Aqui na Pandora, acreditamos que essa celebração deve ser compartilhada. Por isso, preparamos não um, mas TRÊS presentes especiais para você fechar 2025 com a estante cheia e o coração quentinho. É a nossa forma de agradecer pela sua companhia neste ciclo e presentear quem mais importa: você, nosso leitor! Confira em detalhes a magia que preparamos: 1. 🎁 O Presente Imediato: A Magia da Escolha (Leve em Dobro!) Nossa grande promoção de Fim de Ano é sobre o poder da escolha. Este ano, o desconto não é fixo: ele é uma oportunidade. Como funciona? É simples: nas suas compras acima de R$ 99,00, a mágica acontece. Você ganha o direito de escolher um outro livro inteiramente grátis para adicionar ao seu carrinho! Isso mesmo: você escolhe os livros que quer comprar e, atingindo o valor, ganha mais um de presente. Qual é a vantagem? Dependendo do livro que você escolher como brinde, sua compra total pode chegar a incríveis 50% de desconto sobre o valor original dos produtos. É a sua chance de, na prática, levar dois livros pelo preço de um, ou garantir aquele título que você tanto queria como um presente nosso. (Verifique as regras e livros selecionados para o brinde diretamente no site ao fechar seu pedido). 2. 💰 O Presente que Volta: Pandora Cash! Aqui, sua compra vale o dobro. Este é o presente que celebra o futuro! Além de aproveitar a promoção do livro grátis, TODA compra realizada no site durante o período da campanha se transforma automaticamente em Pandora Cash! 💰 Como funciona? Você compra seus livros agora, aproveita a promoção, e nós creditamos um valor de volta (cashback) na sua conta Pandora. Esse crédito ficará guardado e será liberado para você usar nas suas primeiras leituras de 2026. Você garante os presentes de agora e nós garantimos um presente para o seu "eu" do futuro. 3. 🤝 O Presente Compartilhado: Amigo Indica Corujitos! Magia boa é magia compartilhada. Acreditamos tanto nisso que criamos um programa onde todos ganham. Espalhe o amor pela leitura com nosso programa "Amigo Indica Corujitos". Como funciona? Você presenteia: Você envia seu link de indicação pessoal para seus amigos. Com ele, seu amigo ganha 20% OFF de presente para fazer a primeira compra dele no site. (Um presentão de boas-vindas!) Você ganha: Para cada amigo que de fato utilizar o seu link e finalizar a primeira compra, você ganha 50 Corujitos (R$ 50,00) de bônus no seu saldo Pandora Cash. Simples assim! É o ciclo perfeito: você presenteia quem ama e ainda ganha bônus por espalhar a palavra da leitura. Resumindo: A Magia Pandora em Três Atos Este é o nosso jeito de fazer o fim de ano ser mais especial. É a sua chance de: ✅ Ganhar um livro inteiramente grátis nas compras acima de R$ 99,00! ✅ Ganhar dinheiro de volta em CADA compra (Pandora Cash)! ✅ Presentear seus amigos com 20% OFF e ganhar 50 Corujitos por isso! Não dá para perder! 😮 Agradecemos por fazer parte da nossa história em 2025 e esperamos que essa magia torne seu fim de ano ainda mais especial. Corra para o site, pois a promoção é por tempo limitado! 💖 Encontre toda essa magia aqui: www.livrariapandora.com.br #LivrariaPandora #FimDeAnoPandora #PandoraCash #AmigoIndicaAmigo #AmigoIndicaCorujitos #PromoçãoDeFimDeAno #NatalComLivros #LivroGrátis #Cashback #IndiqueEGanhe #GanhamOsDois #PresenteieComLivros #AmoLer

  • Avaliação da intervenção socioeducacional: agentes, âmbitos e projetos

    É com grande entusiasmo e um olhar aguardante sobre o futuro que apresentamos o conteúdo do livro "Avaliação da intervenção socioeducacional: agentes, âmbitos e projetos", disponível na Livraria Pandora. Este trabalho se destaca como uma verdadeira obra-prima no campo da educação e da assistência social, congregando conhecimentos fundamentais sobre a avaliação das intervenções socioeducacionais. Com uma abordagem que estimula a reflexão, o livro convida educadores, assistentes sociais, gestores públicos e todos os interessados na transformação social a mergulharem nas páginas que revelam os desafios, métodos e impactos dessas intervenções na vida de jovens e adultos. A importância da avaliação Vivemos em um mundo em constante transformação, onde a busca por soluções eficazes para os desafios sociais se torna cada vez mais urgente. Nesse contexto, a avaliação das intervenções socioeducacionais emerge como uma ferramenta essencial. Ela não apenas ajuda a medir resultados, mas também a compreender como e por que as diferentes práticas funcionam, proporcionando uma base sólida para a elaboração de futuras estratégias. O livro parte do princípio de que a avaliação não é um mero exercício burocrático, mas sim um processo vivificador que permite a análise crítica das ações desenvolvidas. Ao adotarmos essa perspectiva, percebemos que a avaliação pode ser um poderoso aliado na promoção de mudanças significativas, possibilitando que intervenções sejam ajustadas, aprimoradas e, assim, mais efetivas. Estrutura e conteúdo do livro A obra é organizada de forma didática e envolvente, permitindo que o leitor navegue por diferentes seções que abordam aspectos essenciais da avaliação socioeducacional. Desde uma introdução ao tema, que estabelece os fundamentos teóricos, até estudos de casos reais que exemplificam as discussões, cada capítulo é ricamente tecido por experiências práticas e referencias teóricas sólidas. Um dos pontos altos do livro é a discussão sobre o papel dos agentes intervenientes. Os educadores, assistentes sociais e profissionais envolvidos nas intervenções são vistos como verdadeiros agentes de transformação. Os autores enfatizam a importância do preparo e da formação desses profissionais, ressaltando que, para promover mudanças efetivas, é imprescindível que esses agentes possuam não apenas conhecimento técnico, mas também uma sensibilidade aguçada para as realidades que se apresentam. Práticas avaliativas envolventes Nos capítulos seguintes, explora-se o conceito de práticas avaliativas participativas. A proposta de engajar os jovens e adultos nas avaliações das intervenções nas quais estão inseridos é revolucionária. Esses indivíduos, muitas vezes vistos apenas como sujeitos passivos, ganham voz e protagonismo nesse processo. É uma mudança de paradigma que transforma a avaliação em uma experiência colaborativa, onde todos os envolvidos compartilham suas percepções, desafios e, é claro, suas esperanças. Uma das metodologias apresentadas no livro é a Avaliação Participativa, que envolve a construção coletiva de indicadores e a identificação de metas por parte de todos os envolvidos. Essa abordagem não apenas valoriza a experiência dos beneficiários, mas também fortalece os vínculos e a comunidade, promovendo um senso de pertencimento e empoderamento. Impacto e resultados Na busca por compreender o impacto das intervenções socioeducacionais, o livro apresenta diversas histórias inspiradoras de organizações que, por meio de metodologia e avaliação adequadas, conseguiram transformar realidades. Essas narrativas mostram que, embora os desafios sejam imensos, as possibilidades de mudança são igualmente vastas. Os resultados muitas vezes superam as expectativas iniciais, reafirmando que quando se investe na formação e na avaliação, os frutos colhidos são ricamente abundantes. Além disso, a obra destaca a importância da articulação entre diferentes setores - educação, saúde, assistência social - na construção de um sistema socioeducacional mais coeso e eficaz. Essa intersetorialidade é fundamental para potencializar os resultados das intervenções, criando um ambiente propício ao aprendizado e ao desenvolvimento integral dos indivíduos. Conclusão O livro "Avaliação da Intervenção Socioeducacional: Agentes, âmbitos e projetos" é, sem dúvida, uma leitura indispensável para todos aqueles que se dedicam à promoção de justiça social e desenvolvimento humano. Com uma combinação perfeita de teoria e prática, os autores nos oferecem uma ferramenta inovadora, capaz de integrar conhecimentos e experiências que podem servir de guia para um futuro mais inclusivo. Em suma, a avaliação da intervenção socioeducacional não é apenas um processo necessário; é uma verdadeira jornada de transformação que nos leva a repensar nosso papel enquanto agentes de mudança. A partir do conhecimento adquirido nesta obra, podemos nos inspirar a atuar com mais eficácia e empatia, contribuindo para a construção de uma sociedade onde todos tenham voz, vez e oportunidades. Vamos juntos, com entusiasmo, trilhar esse caminho e nos tornarmos os agentes transformadores que o mundo tanto precisa! Comprando este livro na promoção de Natal da Pandora, você garante 50% de desconto! Isso mesmo, pague a metade do preço por uma obra que vai te levar ao próximo nível na sua atuação como educador social. Mas corra, essa oferta é válida somente até 31 de dezembro de 2024! 🎁🎄 Informações adicionais: * Autores: Santiago Castillo Arredondo e Jesús Cabrerizo Diago * Editora: Intersaberes * Idioma: Português

  • Imprensa Negra Fluminense e Ditadura: Resistência e construção de identidade

    O capítulo 16 do livro Perspectivas Sociológicas Contemporâneas, "Imprensa negra fluminense no contexto da Ditadura Empresarial-Militar", de Helbson de Avila*, analisa o papel crucial da imprensa negra na luta contra o racismo durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985). O autor argumenta que, em um contexto de repressão e censura, a imprensa negra serviu como um espaço fundamental de resistência, construção de identidade e promoção da igualdade racial. A pesquisa utiliza uma metodologia qualitativa, com análise de conteúdo de periódicos da imprensa negra fluminense produzidos durante a ditadura. O autor examina como esses periódicos denunciaram o racismo, promoveram a igualdade racial e se posicionaram como um contraponto à imprensa hegemônica, que frequentemente ignorava ou perpetuava estereótipos raciais. O estudo destaca a importância da imprensa negra na organização e mobilização da comunidade afro-brasileira, especialmente em um contexto de repressão política e social. O autor argumenta que a imprensa negra serviu como um espaço de resistência, construção de identidade e luta contra o racismo estrutural. A pesquisa também analisa as estratégias utilizadas pela imprensa negra para superar os desafios impostos pela censura e pela falta de recursos. O autor destaca a criatividade, a resiliência e o compromisso dos intelectuais negros que produziram esses periódicos, garantindo que as vozes e as demandas da população negra fossem ouvidas, mesmo em um período de adversidades. O capítulo conclui que a imprensa negra desempenhou um papel crucial na luta contra o racismo e na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. O autor destaca o legado da imprensa negra para o movimento negro e para a sociedade brasileira, inspirando futuras gerações a continuar a luta por justiça social e igualdade racial. Contribuições do estudo: Amplia o conhecimento sobre a história da imprensa negra e sua importância na sociedade brasileira. Destaca a importância da comunicação política na luta contra a opressão. Aprofunda o debate sobre o papel da imprensa negra na construção de uma identidade negra positiva. A metodologia utilizada permite uma análise aprofundada do conteúdo e do contexto da imprensa negra durante a ditadura. Este capítulo lança luz sobre um importante aspecto da história da luta contra o racismo no Brasil, demonstrando como a imprensa negra, mesmo diante da repressão, serviu como um instrumento de resistência e de empoderamento da comunidade afro-brasileira. O estudo evidencia a necessidade de se preservar e valorizar esse legado, reconhecendo a imprensa negra como um patrimônio histórico e cultural do Brasil. ÁVILA, Helbson. Imprensa negra fluminense no contexto da Ditadura Empresarial-Militar. In: ZUCCARELLI, Carolina; VINUTO, Juliana; MONTEIRO, Cristiano (Org.). Perspectivas sociológicas contemporâneas. Niterói: Editora Uaná, 2024, p. 462-487. Adquira o seu exemplar virtual gratuitamente, seguindo o link abaixo:

  • Comportamento organizacional e intraempreendedorismo: uma nova abordagem

    No contexto atual das organizações, caracterizadas por um ambiente de constantes mudanças e alta competitividade, o comportamento organizacional apresenta-se como um elemento crucial para o sucesso dos negócios. Trata-se da maneira como os profissionais interagem e se comportam dentro de seus grupos de trabalho, influenciando diretamente a produtividade e a inovação. Contudo, a obra organizada por Camila Bruning, Cristiane Cecchin Monte Raso e Alessandra de Paula oferece uma perspectiva inédita ao integrar o conceito de intraempreendedorismo a essa discussão. O intraempreendedorismo refere-se à postura dos colaboradores que, dentro de suas funções, buscam identificar oportunidades, propor inovações e implementar melhorias nos processos organizacionais. Essa mentalidade empreendedora é fundamental em um cenário onde a adaptabilidade e a inovação se tornaram imperativos. A associação entre comportamento organizacional e intraempreendedorismo delineia um perfil de profissional cada vez mais desejado pelas empresas contemporâneas: aquele que é inovador, criativo e flexível. Ao abordar a sinergia entre esses dois conceitos, a obra não apenas revisita o comportamento organizacional, como também propõe um novo paradigma para a atuação dos colaboradores nas organizações. Essa relação evidência a necessidade de um ambiente que estimule a proatividade e a criatividade, reconhecendo e valorizando iniciativas que promovam melhorias e inovações. Assim, o impacto do comportamento organizacional, quando aliado ao intraempreendedorismo, revela-se vital para a construção de organizações que não apenas sobrevivem, mas que prosperam diante das adversidades do mercado. Em suma, a obra em questão ressalta a importância de um novo profissional capaz de integrar habilidades interpessoais e visão empreendedora, características essenciais para o cenário corporativo atual.

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