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Pensadores Negros Essenciais: A Améfrica Ladina de Lélia Gonzalez

1. O Terremoto Epistemológico

No panteão do pensamento social brasileiro, o nome de Lélia Gonzalez é um terremoto epistemológico. No coração do Novembro Negro, revisitar sua obra não é um ato de homenagem, mas uma necessidade estratégica e urgente para quem busca ferramentas intelectuais para descolonizar o presente. Lélia não foi apenas uma ativista; ela foi uma formuladora de teorias, uma intelectual radical que recusou as lentes importadas — fosse o marxismo ortodoxo, que reduzia tudo à classe, ou o feminismo eurocêntrico, que ignorava a raça — para entender o Brasil.


Sua obra é um ato de insurgência intelectual. Ela compreendeu que o Brasil não podia ser explicado sem centralizar a experiência negra, e mais especificamente, a experiência da mulher negra. Seu legado é vasto, mas dois de seus conceitos centrais demonstram sua genialidade em romper com o epistemicídio e reescrever o mapa da nossa identidade: "Amefricanidade" e "Pretuguês".


2. A Invenção da "Amefricanidade": Dinamitando o Mapa Colonial

Lélia Gonzalez dinamitou o conceito de "América Latina". Ela argumentava que essa terminologia era uma ficção colonial, uma invenção eurocêntrica que, ao nos definir pela língua do colonizador (latina), apagava violentamente os dois pilares que verdadeiramente formaram o continente: o indígena e, sobretudo, o africano. O termo "América Latina" nos irmana com nossos colonizadores (Espanha, Portugal, França) e nos afasta de nossos irmãos da diáspora no Caribe não-latino ou na América do Norte.


Em seu lugar, ela propõe a "Amefricanidade". Somos, segundo ela, uma "Améfrica Ladina".


Essa não é uma simples troca de palavras; é uma reorientação geográfica, histórica e política.


Geográfica: Ela nos força a ver o Atlântico Negro, e não o Atlântico europeu, como o oceano-matriz da nossa modernidade. Nossas conexões culturais, políticas e afetivas estão mais próximas de Lagos, Havana e Kingston do que de Lisboa ou Paris.


Histórica: Ela recentraliza a diáspora africana não como um "apêndice" da história do continente, mas como seu evento fundador.


Política: O termo "Ladina" é crucial. Ele não se refere apenas à origem africana (Améfrica), mas ao processo de ter sido "latinizado" (forçado a falar línguas latinas) e ter subvertido essa imposição. A "Améfrica Ladina" é, portanto, um espaço de conflito, sincretismo e resistência.


Ao se autodenominar "amefricana", Lélia nos convida a reconhecer que a cultura brasileira — da língua à culinária, da música (como o samba) à religião (como o Candomblé) — é fundamentalmente africana em sua estrutura. A identidade nacional não é uma "mistura" vaga e harmoniosa, como no mito da democracia racial, mas uma base negro-africana sobre a qual outras influências se assentaram.


3. O "Pretuguês": A Língua como Território de Resistência

O segundo golpe de Lélia contra a colonialidade foi no idioma. Enquanto a academia tradicional e a gramática normativa discutiam a "língua portuguesa no Brasil" — tratando as variações populares como "erros" ou "corrupções" —, Lélia escutava as ruas, as cozinhas e os terreiros.


Ela percebeu que o que falamos não é português; é "Pretuguês".


Ela demonstrou como as estruturas linguísticas africanas (especialmente do iorubá e do quimbundo) não apenas "influenciaram" o idioma, mas moldaram sua sintaxe, seu ritmo e seu léxico. Não se trata apenas de palavras óbvias como "caxumba", "moleque" ou "samba". Trata-se da própria estrutura frasal:

  • A supressão do "r" nos infinitivos ("Eu vou comê", "Vamos falá").

  • O uso de dupla negação ("Não vou lá, não").

  • A cadência e a musicalidade da nossa fala.


Lélia vai além: ela identifica a figura central dessa revolução linguística: a mulher negra, a "mãe preta" ou a "babá". Ela argumenta que foi essa mulher, ao cuidar dos filhos da casa-grande, quem efetivamente "africanizou" a língua da elite branca. O "Pretuguês" é, portanto, a língua-mãe do Brasil, ensinada pela mulher negra a toda a nação.


Rotular essa língua de "errada" é um ato de racismo epistêmico. Lélia identifica o "Pretuguês" como um ato de resistência cultural e reexistência. Foi a forma que os povos escravizados encontraram para, mesmo sob a imposição da língua do senhor, contrabandear suas próprias visões de mundo. O "Pretuguês" é a marca indelével da África naquilo que o colonizador julgava ser seu maior trunfo: a língua.


4. Um Legado para o Presente: A Interseccionalidade na Prática

Muito antes do termo "interseccionalidade" ser cunhado por Kimberlé Crenshaw, Lélia Gonzalez já o praticava com maestria. Ela foi pioneira ao articular a tríplice opressão de raça, classe e gênero, denunciando o que ela chamava de "racismo e sexismo por omissão".


Sua crítica era dupla e implacável:

  • Contra o Movimento Negro (masculinista): Ela apontava como os homens negros, ao focarem apenas na raça, reproduziam o machismo e invisibilizavam as demandas específicas das mulheres negras.

  • Contra o Movimento Feminista (branco): Ela denunciava como as feministas brancas, ao focarem apenas no gênero, ignoravam a raça e tomavam sua experiência de mulher branca de classe média como universal, praticando o que ela chamava de "imperialismo" dentro do feminismo.

Para Lélia, a mulher negra não era apenas uma "vítima" triplamente oprimida. Ela era o "locus" central da contradição brasileira e, por isso mesmo, a vanguarda da transformação. Ela é a figura que, por estar na base da pirâmide, sintetiza todas as opressões do sistema e, ao mesmo tempo, é a principal guardiã da cultura (como visto no "Pretuguês").


5. Conclusão: Parar de Pedir Licença

Estudar Lélia hoje é mais do que celebrar o Novembro Negro. É adquirir as lentes corretas para entender o Brasil. Sua teoria da "Amefricanidade" é uma ferramenta decolonial poderosa que nos permite romper com a subalternidade intelectual.


Lélia Gonzalez nos ensinou a parar de pedir licença ao pensamento europeu. Ela nos deu a coragem de afirmar que as teorias mais potentes para explicar nossa realidade não virão de fora, prontas para importação. Elas nasceram e nascem aqui, forjadas na luta, na dor, na criatividade e na genialidade de intelectuais-ativistas como ela.

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