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A Cor Insubmissa: Ana Maria Gonçalves e a Ruptura Epistêmica na ABL

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"Não é sobre ausência de vozes. É sobre um projeto de silenciamento." - Djamila Ribeiro


A eleição de Ana Maria Gonçalves para a cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras (ABL), anunciada nesta sexta-feira (7 de novembro), é um evento que transcende a simples ocupação de uma vaga. Como a notícia aponta, o fato de ela ser a primeira mulher negra a ingressar na instituição em seus quase 130 anos de história não é um rodapé biográfico, mas a própria essência do evento.


Este "legado" não é apenas sobre a imortalidade de uma autora, mas sobre a mortalidade de uma estrutura de exclusão secular. A entrada de Gonçalves na ABL é, portanto, menos uma concessão da instituição e mais uma ruptura epistêmica — uma fratura impulsionada pela força de sua obra e pelo avanço inegável do letramento racial na sociedade.


O Panteão e a Norma: A ABL como Ferramenta de Epistemicídio


Para compreender a magnitude deste legado, é preciso analisar o que a ABL representa. Fundada em 1897, em moldes da Académie Française, a Academia se consolidou como o "panteão" da intelectualidade nacional. Contudo, como qualquer instituição, ela é um campo de poder (no sentido bourdieusiano) que detém o monopólio da consagração, refletindo e sacramentando as hierarquias sociais do país.


Seu quadro de "imortais" tem sido, esmagadoramente, o retrato da elite dominante: branca, masculina e sudestina. A ausência de mulheres negras por 128 anos não foi um acaso ou uma infeliz coincidência; foi um projeto de epistemicídio.


Foi a manifestação estética da colonialidade do saber: a lógica colonial que define quais vozes são "universais" (as brancas) e quais são "particulares" ou "folclóricas" (as negras e indígenas). A ABL, ao silenciar sistematicamente a produção negra, não estava apenas excluindo pessoas; estava assassinando saberes, cosmologias e formas de narrar o Brasil.


A Obra como Ferramenta de Reexistência


O legado se torna ainda mais potente quando analisamos quem é Ana Maria Gonçalves. Ela é a autora de "Um defeito de cor" (2006), um dos romances mais importantes da literatura brasileira contemporânea.


A obra é, em si, uma ferramenta de ruptura. É uma genealogia da diáspora, um épico monumental que refaz a trajetória atlântica através da vida de Kehinde (ou Luísa Mahin), figura central na Revolta dos Malês. O livro é um ato de aquilombamento literário: ele resgata uma memória deliberadamente apagada pela historiografia oficial, centra a agência de uma mulher negra e reescreve o Brasil a partir de uma perspectiva de reexistência.


A eleição de Ana Maria Gonçalves significa que a ABL não está apenas recebendo uma pessoa física; ela está sendo forçada a canonizar a contranarrativa que ela mesma foi criada para apagar. A instituição que por mais de um século ignorou a produção intelectual negra agora concede sua maior honraria à obra que denuncia precisamente as consequências desse apagamento.


O Legado em Disputa: Entre a Reparação e a Assimilação


Um ensaio robusto exige um olhar crítico sobre a celebração. A eleição de Gonçalves é uma vitória inegável, fruto da pressão de um novo cenário intelectual que não tolera mais a exclusão explícita. No entanto, ela também levanta questões complexas.


O Risco do Tokenismo: A presença de uma mulher negra, por mais brilhante que seja, não desmantela o racismo estrutural da instituição. O legado só será transformador se a sua presença for um ponto de inflexão, e não um álibi para a manutenção da norma. Como nos alerta Fanon, a armadilha da assimilação é a burguesia nacional (negra) ser convidada a gerir a estrutura colonial sem, contudo, destruí-la.


Reparação e Dívida Histórica: A notícia celebra a "primeira", mas o verdadeiro escândalo são os "130 anos". Este evento é uma reparação histórica tardia. É o reconhecimento, grotescamente atrasado, de que a literatura brasileira sempre foi produzida por vozes negras — vozes como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Lélia Gonzalez —, mesmo que a ABL fingisse não vê-las.


A Cadeira 33: O simbolismo de ela ocupar a cadeira de Evanildo Bechara — um gramático, representante máximo da norma e da tradição — é potente. Sinaliza uma mudança de guarda: da ênfase no logos (a forma, a norma, a gramática) para a valorização do pathos e do ethos (a narrativa, o trauma, o conteúdo histórico-social).


Conclusão: A Imortalidade da Luta


O legado de Ana Maria Gonçalves na ABL não está consolidado no momento de sua posse; ele começa ali. Sua eleição é a materialização de uma disputa pela memória nacional.


Ela insere no "panteão" a voz que narra a senzala, a revolta e a complexidade do ser negro no Brasil. Este não é um legado de pacificação, mas de conflito produtivo. Ana Maria Gonçalves não chega à ABL para ser assimilada ou pacificada; ela chega para desestabilizar e descolonizar.


O seu "defeito de cor" se torna, agora, a cor indelével da própria Academia, forçando-a, enfim, a confrontar o Brasil real.

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