top of page

Seja bem vindo(a) a Livraria Pandora

125 resultados encontrados com uma busca vazia

  • Literatura Indígena no Brasil: Vozes da Reexistência, Identidade e Crítica Sociocultural

    Introdução: A Emergência da Escrita Indígena como Campo de Batalha Simbólica A literatura produzida por autores e autoras indígenas no Brasil contemporâneo representa muito mais do que um fenômeno editorial; é a consolidação de um vibrante e necessário campo de batalha simbólica e política. Em um país fundado sobre a invasão e a contínua expropriação dos povos originários – processos marcados por um silenciamento sistemático e pela imposição de narrativas que os relegavam a um passado romantizado ou a uma alteridade exótica e inferior –, a emergência da escrita indígena atua como um poderoso contradiscurso. Datas como o 19 de abril (Dia dos Povos Indígenas) servem como momentos de visibilidade para lutas incessantes pela demarcação de terras, pela preservação de línguas e culturas e pelo direito fundamental à autodeterminação. Nesse cenário, a literatura, antes um instrumento predominantemente não-indígena sobre os indígenas, torna-se uma ferramenta dos indígenas para narrar a si mesmos, reivindicar memórias e projetar futuros. Sob um olhar sociológico, essa produção transcende a categoria de "objeto estético" para se afirmar como prática social transformadora, intrinsecamente ligada à desconstrução da racialização – esse processo social, como discute Raewyn Connell (2007), que cria hierarquias baseadas em fenótipos e ascendência, legitimando desigualdades. A literatura indígena enfrenta diretamente essa construção, oferecendo um antídoto vital contra estereótipos desumanizantes e promovendo um entendimento mais complexo e digno da diversidade humana no Brasil. A Construção da Identidade Indígena: Entre a Opressão Colonial e a Afirmação Cosmopolítica A questão da identidade é central na literatura indígena, abordada não como uma essência fixa, mas como um processo dinâmico forjado na tensão entre a opressão histórica e a resistência criativa, ecoando a análise de Frantz Fanon (1961) sobre as identidades colonizadas. Por séculos, o olhar colonial buscou definir o "índio" a partir de categorias redutoras – primitivo, selvagem, infantilizado, fadado ao desaparecimento ou à assimilação. A literatura indígena contemporânea reage a essa violência epistêmica ao articular identidades plurais, complexas e ancoradas em cosmovisões próprias. A monumental obra "A Queda do Céu", de Davi Kopenawa Yanomami e Bruce Albert (2015), exemplifica essa démarche de forma magistral. Nela, Kopenawa não apenas denuncia o genocídio e o ecocídio perpetrados contra seu povo, mas expõe a riqueza do pensamento Yanomami, sua complexa cosmologia, a profundidade de sua relação com a floresta (Urihi), os seres espirituais (Xapiri) e a prática xamânica. É uma afirmação de que existe um universo de saberes, histórias e formas de existir que "não está nos livros de história" hegemônicos. Essa literatura, portanto, funciona como um ato de reivindicação de agência narrativa: os indígenas deixam de ser meros objetos de estudo ou representação para se tornarem sujeitos de seu próprio discurso, reconstruindo elos com a ancestralidade e reconfigurando o passado como fonte de força para o presente e o futuro. Autores como Kaká Werá Jecupé e Ailton Krenak também exploram essa conexão profunda entre identidade, território e espiritualidade, desafiando a fragmentação corpo-mente-espírito-natureza prevalente no pensamento ocidental. Descolonizando o Saber: Literatura Indígena como Resistência Epistemológica A produção literária indígena é uma ferramenta crucial na crítica e desconstrução das estruturas de poder que perpetuam o racismo e o que Boaventura de Sousa Santos chamou de epistemicídio: a destruição e desqualificação de conhecimentos não-hegemônicos. Seguindo a linha de pensamento de Michel Foucault (1979), que associa poder e saber, percebemos como o conhecimento ocidental se estabeleceu como universal e neutro, relegando outras formas de saber (indígenas, africanas) à categoria de crença, folclore ou superstição. A literatura indígena atua como uma contundente resistência epistemológica, validando e difundindo filosofias, ciências, tecnologias e artes originárias. A obra de Ailton Krenak, especialmente "Ideias para adiar o fim do mundo" (2019), é um convite radical a questionar os pilares da civilização ocidental – o progresso ilimitado, o desenvolvimento a qualquer custo, o antropocentrismo, a separação humanidade/natureza. Krenak não oferece apenas uma crítica; ele aponta para a sabedoria ancestral indígena como portadora de visões de mundo mais sustentáveis e integradas, essenciais para enfrentar as crises contemporâneas (climática, social, existencial). Ao afirmar que a diversidade cultural e ecológica são faces da mesma moeda e que a Terra não nos pertence, mas nós pertencemos a ela, sua escrita desafia os próprios fundamentos da ontologia ocidental, propondo outros horizontes civilizatórios baseados na coletividade e no respeito à vida em todas as suas formas. Vozes Femininas e Interseccionalidade: A Força da Mulher Indígena na Literatura Uma compreensão sociológica aprofundada da literatura indígena exige atenção à interseccionalidade, reconhecendo que as experiências são moldadas pela interação complexa entre raça, gênero, classe e pertencimento étnico. As mulheres indígenas, historicamente situadas na encruzilhada de múltiplas opressões – o racismo da sociedade envolvente, o machismo (externo e, por vezes, interno) e os impactos específicos da invasão territorial e da exploração econômica sobre seus corpos e modos de vida –, desenvolvem estratégias de resistência e perspectivas únicas, potentemente expressas na literatura. Eliane Potiguara, pioneira com obras como "Metade cara, metade máscara" (2004), e autoras como Graça Graúna, Julie Dorrico e Auritha Tabajara, dão voz a essa realidade multifacetada. Elas narram não apenas as dores da discriminação ("estar no olho do furacão", como diz Potiguara), mas também a força da ancestralidade feminina, o papel central das mulheres na manutenção da cultura, da língua e da organização comunitária, e a luta por autonomia e protagonismo político. Essa literatura desvela a violência específica sofrida pelas mulheres indígenas (física, sexual, obstétrica, epistêmica) e, ao mesmo tempo, celebra sua resiliência, sabedoria e capacidade de recriar a vida e a identidade em contextos adversos. As literaturas de mulheres indígenas são, portanto, essenciais para uma visão completa da diversidade e complexidade das lutas e existências dos povos originários. Literatura Indígena na Educação: Descolonizando Mentes e Construindo Pontes O impacto sociocultural da literatura indígena é particularmente relevante no campo da educação. A sua inserção nos espaços formais e informais de aprendizagem é uma ferramenta poderosa para desafiar o currículo historicamente eurocêntrico e monocultural que ainda prevalece em muitas escolas brasileiras. Esse currículo, ao invisibilizar ou estereotipar os povos indígenas, não apenas perpetua o preconceito e a ignorância na população não-indígena, mas também impacta negativamente a autoestima e o pertencimento dos estudantes indígenas. A teoria do capital cultural de Pierre Bourdieu (2007) ajuda a entender como a escola legitima certos saberes em detrimento de outros. Introduzir a literatura indígena – exigência legal, aliás, trazida pela Lei 11.645/2008 – é um ato pedagógico e político de descolonização cognitiva. Autores como Daniel Munduruku, com sua vasta obra infantojuvenil (ex: "Coisas de Índio", 2000; "Meu vô Apolinário", 2001), têm sido fundamentais nesse processo, construindo pontes entre universos culturais e apresentando às crianças e jovens a beleza, a complexidade e a atualidade das culturas indígenas através de narrativas envolventes e perspectivas não-ocidentais. Essa literatura fomenta a empatia, o respeito à diversidade, o pensamento crítico e a possibilidade de um diálogo intercultural genuíno, contribuindo para formar cidadãos mais conscientes da real composição pluricultural e pluriétnica do Brasil. Contudo, desafios como a formação de professores e a distribuição de materiais adequados ainda precisam ser superados para que esse potencial se realize plenamente. Conclusão: Literatura Indígena como Projeto de Futuro e Bem Viver Em suma, a literatura indígena contemporânea no Brasil transcende a mera expressão artística para se configurar como um poderoso agente de transformação social, cultural e epistêmica. Ela é a voz da reexistência, um espaço onde identidades são afirmadas, memórias são recuperadas e futuros são imaginados contra a maré da colonialidade e do racismo estrutural. As palavras de Kopenawa, Krenak, Potiguara, Munduruku e de uma crescente constelação de escritores e escritoras indígenas oferecem críticas contundentes aos modelos hegemônicos, mas, sobretudo, apresentam saberes e filosofias ancestrais como fontes vitais de inspiração para outros modos de ser e estar no mundo – projetos de "bem viver" que ressoam com urgência diante das crises globais. Essa literatura não é apenas "indígena", mas uma parte fundamental e incontornável da literatura brasileira e do pensamento contemporâneo, cuja leitura e valorização são essenciais para a construção de uma sociedade que reconheça e celebre sua pluralidade intrínseca, caminhando em direção a um futuro mais justo, equitativo e verdadeiramente intercultural. Referências Bibliográficas BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento. Tradução de Daniela Kern e Guilherme J. F. Teixeira. São Paulo: Edusp; Porto Alegre: Zouk, 2007.   CONNELL, Raewyn. Masculinities. 2. ed. Cambridge: Polity Press, 2005. FANON, Frantz. Os Condenados da Terra. Tradução de José Laurênio de Melo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.   FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979. KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A Queda do Céu: Palavras de um xamã Yanomami. Tradução de Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. MUNDURUKU, Daniel. Coisas de Índio. São Paulo: Callis, 2000. MUNDURUKU, Daniel. Meu vô Apolinário: um mergulho no rio da (minha) memória. São Paulo: Studio Nobel, 2001. POTIGUARA, Eliane. Metade cara, metade máscara. São Paulo: Global Editora, 2004.

  • Análise crítica das Mensagens Legislativas da Prefeitura de Barra Mansa e seus impactos na Educação

    Introdução Os documentos legislativos apresentados pela Prefeitura de Barra Mansa revelam um conjunto de medidas que, sob a lente das teorias críticas e trabalhistas, suscitam preocupações acerca da valorização da educação e dos profissionais que nela atuam. A proposta de reestruturação dos cargos de gestão escolar, a alteração da carga horária dos professores e a adequação da previdência municipal à reforma nacional sinalizam mudanças que podem impactar profundamente as relações de trabalho, a qualidade do ensino e o futuro dos educadores. Esta análise aprofundada busca desvelar as implicações dessas medidas, lançando luz sobre as possíveis consequências para a classe trabalhadora da educação e convocando à reflexão e à ação organizada. Análise Crítica Detalhada Mensagem nº 21: A Hierarquização e o Trabalho Gerencial A Mensagem nº 21 detalha a criação de cargos de Direção Geral Escolar e funções gratificadas de Direção Escolar e Direção Escolar Adjunta, com salários que variam de R$ 2.800,00 a R$ 3.600,00. Essa medida estabelece uma clara hierarquia no sistema educacional, o que, segundo as teorias críticas, pode consolidar o poder nas mãos de uma elite administrativa, afastada das realidades da sala de aula. Como argumenta Paro (1988, p. 42), “a organização do trabalho escolar é marcada por uma divisão técnica e social que subordina o trabalho docente ao poder da gestão, muitas vezes descolada do chão da escola”.    Do ponto de vista trabalhista, a criação de cargos com salários mais altos para gestores representa uma forma de estratificação ocupacional, que desvaloriza o trabalho dos professores. A divisão do trabalho é aprofundada, com os gestores se concentrando em tarefas administrativas e os professores sendo relegados ao trabalho em sala de aula, o que pode levar à alienação e à perda de autonomia (Frigotto, 1984). Essa hierarquização pode levar a um enfraquecimento da participação democrática na gestão escolar, com os professores tendo menos voz nas decisões que afetam seu trabalho e os alunos. Uma gestão escolar distante da realidade da sala de aula pode resultar em decisões que negligenciam as necessidades pedagógicas dos alunos, como a falta de investimento em recursos ou o desinteresse por problemas de aprendizagem. Mensagem nº 22: Intensificação do Trabalho Docente A Mensagem nº 22 propõe a atualização da carga horária dos professores, aumentando o tempo destinado a planejamento e estudos. Embora o planejamento seja importante, essa medida pode ser interpretada como uma forma de intensificação do trabalho, o que, segundo as teorias críticas, pode levar à exaustão, ao estresse e à diminuição da qualidade do ensino. Oliveira (2005, p. 67) observa que “a intensificação do trabalho docente expressa a lógica do capital que, ao transformar o professor em um executor de tarefas, reduz sua autonomia e intelectualidade”.    A perspectiva trabalhista enfatiza que o aumento da carga de trabalho sem a devida compensação salarial é uma forma de exploração. Os professores são obrigados a trabalhar mais para produzir o mesmo resultado, o que aumenta a extração de mais-valia. Além disso, o aumento do tempo dedicado ao planejamento pode reduzir o tempo de interação com os alunos, prejudicando a relação professor-aluno e a qualidade do ensino. A intensificação do trabalho docente pode levar a um aumento do absenteísmo, da rotatividade e da insatisfação da categoria, o que afeta negativamente o sistema educacional. Professores sobrecarregados e estressados podem ter mais dificuldade em criar um ambiente de aprendizado positivo e acolhedor, prejudicando o desenvolvimento e a motivação dos alunos (Enguita, 1993). Essa intensificação pode se manifestar na prática pedagógica por meio de aulas menos dinâmicas e interativas, menor tempo para tirar dúvidas dos alunos e dificuldade em oferecer um acompanhamento individualizado. Mensagem nº 20: Reforma Previdenciária e Insegurança A Mensagem nº 20 propõe a adequação da legislação previdenciária municipal à Emenda Constitucional nº 103/2019. As teorias críticas analisam as reformas previdenciárias como parte de um projeto neoliberal de desmantelamento do Estado de bem-estar social, que transfere os riscos do sistema para os trabalhadores, aumentando a insegurança e a vulnerabilidade. Antunes (2009, p. 113) destaca que “as reformas do Estado neoliberal deslocam os riscos sociais para os indivíduos, enfraquecendo a proteção pública e acirrando a insegurança estrutural”.    Do ponto de vista trabalhista, as reformas previdenciárias representam um ataque aos direitos dos trabalhadores. O aumento da idade de aposentadoria e a redução dos benefícios são vistos como uma forma de expropriação do trabalho passado. A reforma previdenciária pode gerar desmotivação e insegurança entre os professores, que veem seu futuro ameaçado. Isso pode levar a uma diminuição do engajamento e do comprometimento com o trabalho, além de incentivar a busca por outras oportunidades, prejudicando a continuidade do corpo docente e o vínculo dos alunos com seus educadores. Impacto no Processo Educacional dos Alunos As mensagens legislativas de Barra Mansa apresentam o potencial de afetar negativamente não apenas os trabalhadores da educação, mas também o processo educacional dos alunos. A hierarquização excessiva, a intensificação do trabalho docente, a desvalorização dos professores e a reforma previdenciária podem comprometer a qualidade do ensino, prejudicar a relação professor-aluno, desmotivar os alunos e dificultar o desenvolvimento de um ambiente escolar positivo e produtivo. A desvalorização dos professores pode transmitir aos alunos a ideia de que a educação não é prioridade, contribuindo para a desvalorização da escola (Dubet, 2004). Conclusão A análise das mensagens legislativas de Barra Mansa, sob a perspectiva das teorias críticas e trabalhistas, revela um cenário complexo e preocupante. As políticas propostas, aparentemente voltadas para a modernização e a eficiência, podem, na prática, intensificar o trabalho docente, precarizar as condições laborais e aprofundar as desigualdades no sistema educacional. Diante desse quadro, faz-se urgente um chamado ao desdobramento da organização da classe trabalhadora da educação em seus respectivos sindicatos. É fundamental que os educadores se unam para debater as propostas, mobilizar-se contra as medidas que ameaçam seus direitos e construir alternativas que valorizem o trabalho docente e garantam uma educação pública de qualidade para todos. Como bem pontua Boito Jr. (2007, p. 89), “a conquista de direitos não é fruto de concessões, mas de lutas coletivas. A organização sindical é a forma por excelência de resistência do trabalhador”. A história nos mostra que somente a luta organizada é capaz de enfrentar as investidas contra os trabalhadores e transformar a realidade social. Bibliografia Básica ANTUNES, Ricardo. Os Sentidos do Trabalho:  Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2009. BOITO JR., Armando. Estado, Política e Classes Sociais . São Paulo: Cortez, 2007.    DUBET, François. O Que É uma Escola Justa?  São Paulo: Editora Vozes, 2004. ENGUITA, Mariano. O Trabalho Docente:  Entre a Autonomia e a Precarização. Porto Alegre: Artmed, 1993. FRIGOTTO, Gaudêncio. A Produtividade da Escola Improdutiva . São Paulo: Cortez, 1984. OLIVEIRA, Dalila Andrade. Docência e Intensificação do Trabalho . Belo Horizonte: Autêntica, 2005. PARO, José. Educação, Administração e Luta de Classes . São Paulo: Cortez, 1988. SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia . Campinas: Autores Associados, 1994.

  • A Celebração anunciada: a magia da Bienal do Livro - Rio 2025 bate à nossa porta (e a nossa Caravana já tem data, preço e ingressos à venda!)

    O ar em Barra Mansa já começa a vibrar em outra frequência. Ainda em abril, com a cidade imersa em sua rotina cotidiana, uma expectativa silenciosa e crescente se espalha entre os apaixonados pela leitura — aqueles que veem nas páginas de um livro não apenas uma distração, mas um convite à transformação. Essa vibração tem nome e data marcada: a Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro 2025  está chegando! Mais do que um evento, a Bienal do Livro é uma verdadeira instituição cultural. É o ponto de encontro entre imaginação e realidade, onde o universo das letras ganha corpo, voz e cheiro. Falar da Bienal é evocar uma experiência sensorial e intelectual única: o burburinho nos corredores do Riocentro, as conversas apaixonadas entre leitores, o cheiro inconfundível de livros recém-abertos, o colorido dos estandes que oferecem desde os clássicos até as apostas mais ousadas da literatura contemporânea. Mas a Bienal vai além do encantamento estético: ela cumpre um papel estratégico na valorização do livro como bem simbólico e na democratização do acesso à cultura. Trata-se de um espaço onde leitores se reconhecem e se conectam com autores — desde nomes consagrados até vozes emergentes —, onde o saber circula livremente em debates, oficinas e lançamentos que desafiam o pensamento e inspiram novos horizontes. Em tempos de retrocessos e cortes na cultura, a Bienal reafirma que o livro é resistência, é diálogo, é ponte entre mundos. É também uma poderosa ferramenta de formação leitora. Para os adultos, é a chance de reencontrar paixões esquecidas ou descobrir novos gêneros. Para os mais jovens, é o lugar onde nasce o hábito, onde o livro deixa de ser obrigação escolar e se transforma em escolha pessoal, em descoberta prazerosa. Levar crianças, adolescentes e jovens à Bienal é investir em um futuro crítico, criativo e mais justo. E para nós, de Barra Mansa, esse grande acontecimento cultural tem um sabor ainda mais especial. Pela proximidade geográfica e afetiva, a Bienal do Rio é o evento literário mais esperado por nossa comunidade. Ao longo dos anos, nossa tradicional caravana transformou esse momento em uma experiência coletiva marcante — feita de expectativas trocadas no caminho, indicações de leitura sussurradas nos corredores e memórias que permanecem vivas muito depois da última página lida. E que tal amplificar ainda mais essa magia?  Uma aventura como essa fica gravada na memória, mas compartilhá-la com amigos a torna verdadeiramente lendária! Pense nas risadas no ônibus, nas descobertas simultâneas pelos corredores da Bienal, nas conversas animadas sobre os livros e autores encontrados na volta para casa. Esta é a oportunidade perfeita para reunir sua turma, seus companheiros de leituras (ou aqueles que você quer iniciar nesse vício maravilhoso!), e transformar a visita à Bienal numa grande celebração da amizade e da literatura. Não guarde essa fantasia literária só para você: convide seus amigos e amigas! Vamos juntos criar um capítulo inesquecível! Por isso, com entusiasmo renovado e a certeza de que a edição de 2025 será ainda mais memorável, temos uma notícia que aquece o coração dos leitores locais: a Caravana Barra Mansa -> Bienal do Livro Rio 2025  está oficialmente confirmada! Data marcada:  sábado, 14 de junho de 2025 . Nosso ponto de encontro será às 7h da manhã, na Praça da Matriz , no coração da cidade. A saída será pontual, garantindo o máximo de tempo para explorar os pavilhões da Bienal. O retorno está previsto para iniciar às 17h , diretamente do Riocentro, com todo o conforto e segurança que nossa comunidade merece. O investimento para essa jornada cultural é de R$ 150,00 por pessoa  — um valor acessível diante da imensidão de experiências oferecidas. E temos um bônus especial: membros cadastrados no site da Livraria Pandora recebem um desconto exclusivo  como forma de reconhecimento e gratidão por apoiarem a literatura local e participarem ativamente do nosso universo de leitores. Os ingressos já estão à venda e podem ser adquiridos na aba “Agenda” do site da Livraria Pandora.  Lá, você encontrará todas as informações sobre o trajeto, itens inclusos no pacote, orientações sobre o desconto e nossos canais de contato para esclarecimento de dúvidas. Reforçamos: as vagas são limitadas e costumam esgotar rapidamente — portanto, não deixe para depois!  Garanta o seu lugar e incentive seus amigos a fazerem o mesmo! Mais do que uma excursão, essa é uma convocação para celebrarmos juntos a potência da leitura e da cultura. Prepare seu coração, sua lista de desejos literários e seus marcadores de página: a Bienal do Livro Rio 2025 nos espera. E nossa caravana será, mais uma vez, o prólogo perfeito para essa jornada inesquecível. A contagem regressiva começou. Vamos juntos fazer história!

  • Escola Cívico-Militar e as Racialidades: inconsistência político-pedagógica, violência simbólica e a indução à abnegação do Ser Negro no Projeto de Nação Contemporâneo

    No turbulento cenário das disputas contemporâneas em torno da educação pública no Brasil, o modelo de escolas cívico-militares emerge com a promessa de restaurar a "ordem", a "disciplina" e o "civismo" em ambientes escolares percebidos como caóticos. Contudo, sob este verniz de eficiência gerencial e retórica patriótica, oculta-se um projeto político e pedagógico que, longe de ser neutro, opera como um potente dispositivo de reprodução e intensificação de mecanismos de exclusão e controle racial. Como nos alerta Frantz Fanon (2008) em sua análise seminal sobre os efeitos psicossociais do colonialismo, sujeitos racializados são submetidos a uma tensão dilacerante entre o desejo de reconhecimento e pertencimento a uma sociedade que os rejeita estruturalmente, e a dolorosa necessidade de mascarar ou negar a própria identidade para sobreviver. Ao transpor essa lente fanoniana para a análise das escolas cívico-militares, podemos desvelar como seu aparato disciplinador, focado na hierarquia, na uniformidade e na obediência, se estrutura como uma sofisticada tecnologia de poder racializante. Este ensaio argumenta que tal modelo exibe uma profunda inconsistência político-pedagógica, manifesta na violência simbólica que exerce e na indução à abnegação do ser negro , funcionando, em última instância, como um braço educativo de um projeto de nação conservador que rejeita a pluralidade e, em certo sentido, pratica uma forma de necropolítica educativa (Mbembe, 2011), decidindo quais vidas, corpos e saberes são dignos de afirmação e quais devem ser silenciados ou conformados para existir dentro de seus muros. Militarização da educação como Tecnologia Racial do Estado A implementação de escolas cívico-militares não pode ser compreendida como um fenômeno isolado ou meramente administrativo. Ela se inscreve em uma tendência mais ampla de expansão do paradigma securitário e punitivista do Estado brasileiro, que permeia diversas esferas da vida social. A presença ostensiva de militares (da reserva ou da ativa) na gestão cotidiana da escola, atuando no controle disciplinar e na imposição de normas de conduta, age como uma extensão do aparato repressivo estatal, historicamente direcionado com maior intensidade aos corpos negros, indígenas e periféricos. Conforme argumenta Silva (2020), o Estado contemporâneo frequentemente desloca sua função primordial de garantia de direitos e proteção social para uma atuação focada na vigilância, no controle e na contenção dos "indesejáveis" ou dos "corpos racializados desviantes". Nesse sentido, a militarização do ambiente escolar transforma a escola, espaço que deveria ser de acolhimento, diálogo e formação crítica, em um dispositivo de controle territorial e comportamental, onde a lógica da segurança se sobrepõe à lógica pedagógica. Configura-se, assim, um espaço que pode se assemelhar mais a um quartel ou a um dispositivo pré-carcerário do que a um ambiente propício ao desenvolvimento integral e à formação para uma cidadania plena e emancipada. A quem interessa essa forma de gestão que prioriza a ordem imposta sobre o aprendizado dialógico? Que subjetividades ela busca formar ou, mais precisamente, deformar para adequá-las a um padrão específico? Fica evidente que não se trata apenas de "melhorar a gestão", mas de exercer controle – controle racial, controle territorial, controle sobre os corpos e, fundamentalmente, controle epistemológico sobre o que pode ser dito, pensado e vivido na escola. A Pedagogia do Controle, a Violência Simbólica e a Negação da Identidade No cerne da prática pedagógica das escolas cívico-militares reside uma ênfase desmedida na uniformidade, na hierarquia rígida e na obediência inquestionável. Esses pilares, apresentados sob a justificativa de promover a disciplina e o respeito, operam na prática como mecanismos de profunda violência simbólica, nos termos definidos por Pierre Bourdieu (1998). A violência simbólica se caracteriza por ser uma forma de dominação que se exerce com o consentimento (muitas vezes inconsciente) dos dominados, por meio da imposição de padrões culturais, estéticos e comportamentais do grupo dominante como se fossem universais, neutros e legítimos. No contexto escolar cívico-militar, as normas sobre o corte de cabelo (frequentemente proibindo ou estigmatizando penteados afro), o uso de fardas idênticas que apagam individualidades, as restrições a formas de expressão cultural e linguística consideradas "inadequadas" (muitas vezes associadas a culturas populares, negras e periféricas) e a própria estrutura hierárquica que desencoraja o questionamento, tudo isso constitui a aplicação dessa violência. O padrão imposto é, invariavelmente, o padrão branco, masculino, heteronormativo e de classe média/alta. Como adverte bell hooks (1994), essa "pedagogia do controle", que prioriza a ordem e a conformidade sobre a liberdade e a transgressão criativa, em vez de libertar os estudantes para que pensem criticamente e se expressem autenticamente, aprisiona-os em moldes estreitos, especialmente aqueles cujas identidades e corpos destoam da norma hegemônica. A disciplina militarizada, portanto, não é neutra; ela é racializada e classista, atuando para moldar sujeitos dóceis e conformados a uma estrutura social desigual. A Abnegação do Ser Negro como Performance de Sobrevivência Nesse ambiente de intensa pressão por conformidade e de constante vigilância, a abnegação do ser negro  emerge não apenas como uma consequência indesejada, mas como uma performance  muitas vezes necessária para a sobrevivência subjetiva e social dentro da instituição. Compreendemos essa abnegação como um processo doloroso, fruto da violência simbólica internalizada, no qual sujeitos negros são compelidos – ou sentem-se compelidos – a silenciar, esconder, modificar ou mesmo rejeitar seus traços fenotípicos (como o cabelo natural), suas expressões culturais, sua história, sua linguagem e até mesmo suas formas de sociabilidade, para se adaptarem ao padrão branco exigido e, assim, evitarem punições, estigmas ou a exclusão. É a máscara branca sobre a pele negra de que falava Fanon, performada cotidianamente no espaço escolar. Essa "abnegação performática" torna-se uma estratégia para navegar em um território hostil, uma tentativa de obter reconhecimento ou, ao menos, invisibilidade protetora, dentro de um sistema que educa para o embranquecimento simbólico e cultural. Jovens negros aprendem que para serem considerados "bons alunos", "disciplinados" ou "integrados", precisam deixar partes fundamentais de si mesmos do lado de fora do portão da escola. A identidade negra é convertida em desvio a ser corrigido, e o silenciamento ou a imitação do padrão dominante são recompensados como virtudes. O custo psicológico dessa performance contínua é imenso, minando a autoestima, a saúde mental e o próprio direito à existência autêntica. Conservadorismo, Projeto de Nação e a Rejeição da Pluralidade A emergência recente e a defesa fervorosa das escolas cívico-militares no Brasil não ocorreram no vácuo. Elas estão intrinsecamente ligadas a um projeto político e cultural mais amplo, de caráter conservador e, por vezes, abertamente autoritário, que ganhou força na cena nacional. Esse projeto busca reabilitar valores tradicionais, reforçar hierarquias sociais (incluindo as raciais e de gênero), conter movimentos sociais e culturais vistos como "desestabilizadores" e reiterar o mito da democracia racial, negando ou minimizando a existência do racismo estrutural. A escola cívico-militar encaixa-se perfeitamente nessa lógica, funcionando como um laboratório para a formação de um tipo específico de subjetividade: o cidadão patriota, obediente, acrítico e conformado à ordem vigente. A figura idealizada do aluno é, implicitamente, a do homem (cis, hétero) branco, de classe média, cujos valores e estética são tidos como o padrão nacional. Todas as outras formas de ser e existir – negros, indígenas, LGBTQIA+, pessoas com deficiência, sujeitos de classes populares – são frequentemente vistas como ameaças a essa ordem homogênea e, portanto, precisam ser disciplinadas, controladas ou assimiladas à força. Nesse projeto, a escola deixa de ser um espaço de debate plural e construção de conhecimento crítico para se tornar uma trincheira ideológica contra as pedagogias libertadoras, os estudos de gênero, a educação para as relações étnico-raciais e qualquer abordagem que questione as estruturas de poder. A rejeição à pluralidade é, portanto, um componente central da atratividade desse modelo para certos setores políticos. Conclusão: Pela reivindicação do Direito de Existir em Plenitude Analisar as escolas cívico-militares sob a ótica das racialidades e da teoria crítica expõe a falácia de sua suposta neutralidade e eficiência. Evidencia-se uma profunda inconsistência político-pedagógica, onde um discurso de inclusão e melhoria educacional mascara práticas de controle racializado, violência simbólica e indução à abnegação do ser negro. Esse modelo, ao invés de promover uma cidadania plena, arrisca-se a formar sujeitos fragmentados, psicologicamente feridos pela necessidade de negar a si mesmos para serem aceitos. Rechaçar a abnegação como projeto educativo é, fundamentalmente, afirmar o direito à existência plena e digna de todos os estudantes, em toda a sua diversidade. Isso implica não apenas denunciar os dispositivos de silenciamento e violência presentes nas escolas militarizadas, mas, sobretudo, lutar por e fortalecer outros modos de educar: pedagogias libertadoras, plurais, insurgentes e radicalmente antirracistas. Experiências como as escolas quilombolas, os territórios etnoeducacionais indígenas, as pedagogias decoloniais e as práticas educativas inspiradas em pensadoras como Lélia Gonzalez (2020), Sueli Carneiro (2021) e Nilma Lino Gomes (2004) demonstram que é possível construir uma educação que afirme a diversidade, promova a equidade racial e forme sujeitos críticos e conscientes de seu poder de transformação. A escola brasileira, para cumprir seu papel democrático, precisa ser um território de vida, de encontro, de celebração da diferença e de construção de futuros mais justos – e não uma trincheira de controle, silenciamento e negação. Referências Sugeridas BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina . Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. CARNEIRO, Sueli. Escritos de uma vida . São Paulo: Pólen, 2021. (Ou Enegrecer o Feminismo) FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas . Salvador: EDUFBA, 2008. GOMES, Nilma Lino. O Movimento Negro Educador: Saberes construídos 1  nas lutas por emancipação . Petrópolis: 2  Vozes, 2017. GONZALEZ, Lélia. Por um Feminismo Afro-latino-americano . Rio de Janeiro: Zahar, 2020. HOOKS, bell. Ensinando a Transgredir: A Educação como Prática da Liberdade . São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013. MBEMBE, Achille. Necropolítica . São Paulo: n-1 edições, 2018 (ou 2011). SILVA, Petronilha Beatriz Gonçalves e. Educação para as Relações Étnico-Raciais . In: MUNANGA, Kabengele (Org.). Superando o Racismo na Escola. Brasília: MEC/SECAD, 2005.

  • A arte secreta de espionar livros na rua: um estudo antropológico

    Se você já se pegou andando pela rua, arregalando os olhos atrás de uma tela invisível que só você consegue ver, enquanto tenta identificar que livro a pessoa à sua frente está lendo, você não está sozinho. Eu chamo essa atividade popular de “detetive literário”, e em um nível mais avançado, “espião de estante alheia”. Não se preocupe, o FBI ainda não está atrás de nós por essa prática, mas a minha avó definitivamente ficaria horrorizada com a ideia de que eu estou me intrometendo na vida dos outros – especialmente quando se trata de livros! Imagine a cena: você está caminhando pela calçada, com um café na mão e os fones de ouvido tocando a trilha sonora de sua vida. De repente, você avista uma pessoa andando em sua direção, um exemplar intrigante de "Guerra e Paz" (ou será que é "Crepúsculo"?) em mãos. A adrenalina começa a correr e você se vê em uma situação de vida ou morte: identificar qual livro é aquele se torna a sua prioridade número um. Primeira coisa: seu olhar casual. Uma olhadinha rápida e discreta, como se você estivesse apenas observando o céu de um azul profundo – que, por acaso, é a cor do livro que a pessoa está segurando. Mas sabe como é, a curiosidade é um bicho danado! É como um gato com nove vidas, certo? Um passo em falso e seu disfarce vai por água abaixo. Agora você está jogando um jogo de esconde-esconde literário na calçada. No entanto, a duração da sua missão é um fator crítico: o tempo que você pode gastar em sua análise literária é inversamente proporcional à velocidade da pessoa. Quanto mais interessante for o livro, mais rápido a pessoa andará. Parece uma regra não escrita da física literária. É como se o universo estivesse conspirando contra você, aumentando a distância para a resposta da sua pergunta existencial: "O que é um livro, senão um portal para outras vidas?" Entretanto, se você realmente deseja levar suas habilidades de “espião literário” para o próximo nível, existe a abordagem furtiva. O método “espião ninja” exige uma calibração perfeita do seu ângulo de visão. Agora, você deve achar um lugar estratégico, uma esquina, talvez até mesmo se esconder atrás de uma árvore, se necessário. Espiar discretamente os trechos. Ah, isso é a verdadeira emoção! Imagine a cena: você está abaixado, quase como um agente secreto da literatura, tentando ler as linhas de um livro que está sendo segurado por alguém que nem sequer suspeita da sua presença. Com a sua caneca de café em uma mão e a outra disfarçada em um movimento perfeitamente coreografado de “coçar a cabeça”, você inspira a confiança necessária para tal proeza. “Estava apenas examinando a textura dessa árvore, sim, sim… não sou espião, muito menos um leitor um tanto desesperado.” Agora, vamos falar sobre o conteúdo do que você está tentando ler. É uma linha de “Harry Potter e a Ordem da Fênix”. Você já leu, mas a temperatura do seu corpo sobe como se tivesse encontrado um tesouro escondido. A frase “uma noite em que as estrelas estavam brilhando” derrubou você de forma épica. Isso é tudo que você precisa saber para querer comprar o livro e alimentá-lo em seu ‘coming soon’ de listas de leitura. Diz-se que a vida é feita de escolhas, mas enquanto a pessoa ali avança para o parque, você se pergunta: as escolhas dela não interferem na sua própria jornada literária? Ah, e não vamos esquecer das conversas que podem surgir de uma espiada bem-sucedida. Você poderia se encontrar em um cruzamento literário com um estranho e, de repente, terem uma discussão acalorada sobre o livro que ambos estão lendo. Mas, claro, isso ocorrerá apenas se você se lembrar de qual era o título. Ninguém quer passar pela humilhação de ter que perguntar: “Então, sobre esse livro que você estava lendo?” e em seguida descobrir que o título era uma biografia de um famoso toureiro espanhol, enquanto você estava apenas tentando entender a última tendência de romances adolescentes. No entanto, essa busca pela identificação literária pode ter seus perigos. Existe o potencial de um confronto súbito! Um guerreiro da literatura pode não estar apenas segurando um livro; ele pode entrar em um estado cambiando de sua persona literária, e assim que você der uma olhadinha casual, pode receber um olhar mortal. “O que você está olhando, criminoso das páginas?”, pode muito bem perguntar a pessoa, fazendo com que você deseje enfiar a cara no chão e se esconder como um conchinha na areia. E assim, enquanto caminhamos pelas ruas, esforçando-nos para desvelar os mistérios da literatura alheia, lembremos sempre de que somos todos parte de um grande campo de espionagem informal, à caça de sabedoria e novos mundos ocultos entre as páginas. No final do dia, talvez devêssemos nos unir à causa e não apenas ser espiões, mas promotores de leituras e discussões, incentivando todos a não guardarem suas histórias só para si. A literatura é magia, e magicamente, todos temos o direito de nos tornarmos um pouco mais paranóicos ao redor dela. Então, da próxima vez que você vê alguém segurando um livro na rua, olhe. Mas lembre-se: há um delicado equilíbrio entre a espionagem e a amizade literária. Temos uma grande missão pela frente: fazer de cada esquina um ponto de encontro literário, onde todos têm o direito de compartilhar o que estão lendo – sem que você precise se esconder atrás de uma árvore. Que comece a festa dos livros!

  • Calendário literário de abril: celebração da Literatura e de grandes autores

    Abril é um mês especial para a literatura, marcado por eventos, efemérides e homenagens a grandes escritores. Desde festivais internacionais do livro até aniversários e falecimentos de figuras icônicas, este mês é uma oportunidade de valorizar a cultura escrita e seus protagonistas. Destaques do Mês: Eventos Literários Bienal Internacional do Livro do Ceará (6 a 13 de abril) – Um dos maiores eventos literários do Brasil, reunindo escritores, editoras e leitores em Fortaleza. Feira Literária de Tiradentes (FLITI) (9 a 13 de abril) – Evento que promove a literatura infantil e juvenil em Minas Gerais. Festival do Livro de Paris (11 a 13 de abril) – Uma celebração literária na capital francesa, com participação de escritores de todo o mundo. Feira Internacional do Livro de Buenos Aires (24 de abril a 12 de maio) – Um dos eventos mais importantes da literatura em língua espanhola. Feira Internacional do Livro de Bogotá (25 de abril a 11 de maio) – Estandes, debates e lançamentos literários na Colômbia. Efemérides Literárias Dia Internacional do Livro Infantil (2 de abril) – Homenagem ao nascimento de Hans Christian Andersen. Dia Nacional do Livro Infantil (18 de abril, Brasil) – Comemoração do nascimento de Monteiro Lobato. Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais (23 de abril) – Instituído pela UNESCO, também data de falecimento de William Shakespeare e Miguel de Cervantes. Nascimentos Importantes Monteiro Lobato (18 de abril de 1882) – Um dos maiores escritores da literatura infanto-juvenil brasileira. Manuel Bandeira (19 de abril de 1886) – Poeta modernista, autor de "Vou-me embora pra Pasárgada". Vladimir Nabokov (22 de abril de 1899) – Escritor russo-americano, famoso por "Lolita". Charlotte Brontë (21 de abril de 1816) – Autora do clássico "Jane Eyre". Falecimentos Memoráveis Cora Coralina (10 de abril de 1985) – Poeta brasileira de grande relevância. William Shakespeare (23 de abril de 1616) – O maior dramaturgo de todos os tempos. Miguel de Cervantes (22 de abril de 1616) – Criador de "Dom Quixote". Mário de Andrade (25 de fevereiro de 1945) – Figura central do modernismo brasileiro. Lista Completa em Ordem Cronológica 1º de abril: Leitura Divertida (Reading is Funny Day). 2 de abril: Dia Internacional do Livro Infantil. Nascimento de Émile Zola (1840-1902). 3 de abril: Nascimento de Washington Irving (1783-1859). 4 de abril: Nascimento de Isidore Ducasse (1846-1870). 7 de abril: Nascimento de Gabriela Mistral (1889-1957). 9 de abril: Nascimento de Charles Baudelaire (1821-1867). 10 de abril: Falecimento de Cora Coralina (1889-1985). 11 a 13 de abril: Festival do Livro de Paris. 12 de abril: Dia Nacional do Livro Infantil (Beverly Cleary's Birthday/Drop Everything and Read Day). Nascimento de Inca Garcilaso de la Vega (1539-1616). 13 de abril: Nascimento de Samuel Beckett (1906-1989). 14 de abril: Nascimento de Aluísio Azevedo (1857-1913). 15 de abril: Nascimento de Leonardo da Vinci (1452-1519). Nascimento de Henry James (1843-1916). 16 de abril: Nascimento de Anatole France (1844-1924). 18 de abril: Dia Nacional do Livro Infantil (Brasil). Nascimento de Monteiro Lobato (1882-1948). 19 de abril: Nascimento de Manuel Bandeira (1886-1968). Nascimento de Lygia Fagundes Telles (1918-2022). 20 de abril: Nascimento de Augusto dos Anjos (1884-1914). Nascimento de Daniel Defoe (c. 1660). 21 de abril: Nascimento de Charlotte Brontë (1816-1855). Nascimento de Hilda Hilst (1930-2004). 22 de abril: Nascimento de Mozart Soriano Aderaldo (1917-1995). Falecimento de Miguel de Cervantes (1547-1616). Nascimento de Vladimir Nabokov (1899-1977). 23 de abril: Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais. Falecimento de William Shakespeare (1564-1616). Falecimento de Inca Garcilaso de la Vega (1539-1616). Nascimento de Maurice Druon (1918-2009). Nascimento de Halldór Laxness (1902-1998). Nascimento de Manuel Mejía Vallejo (1923-1998). 24 de abril: Falecimento de Daniel Defoe (1660-1731). 25 de abril: Falecimento de Álvares de Azevedo (1831-1852). 26 de abril: Nascimento de José Mauro de Vasconcelos (1920-1984). O calendário literário de abril nos convida a celebrar a escrita, conhecer novos autores e revisitar clássicos. É um mês para prestigiar eventos, relembrar grandes escritores e manter viva a paixão pelos livros. Que tal escolher uma obra de um desses autores para ler este mês?

  • A construção da personalidade e a percepção pública de Aline no BBB 25: Uma análise sociológica das Racialidades

    O Big Brother Brasil (BBB) consolidou-se como um espaço de experimentação social, onde identidades são construídas, disputadas e julgadas sob intensa vigilância midiática. Dentro desse laboratório social, questões como raça, gênero e classe emergem como fatores cruciais para a percepção pública dos participantes. No BBB 25, a trajetória de Aline — uma mulher negra e ex-policial militar — oferece um estudo de caso revelador sobre as racialidades na cultura brasileira e como a performance de sua identidade é interpretada pelo público. A análise de sua participação deve considerar como a interseccionalidade (Crenshaw, 1989) influencia tanto sua experiência dentro do jogo quanto a forma como é representada e recebida pela audiência. Identidade Negra, Gênero e os Conflitos de Expectativas A identidade racial de Aline é um elemento central na maneira como sua personalidade é construída e percebida. No Brasil, a mulher negra é historicamente posicionada em papéis sociais que oscilam entre a subalternização e a hipervisibilidade, frequentemente reduzida a estereótipos como a “mulher forte” ou a “raivosa” (Gonzalez, 1984; Carneiro, 2003). Aline, ao ocupar um espaço de liderança e assertividade dentro do jogo, desafia essas expectativas, mas também se torna alvo de reações que revelam as tensões raciais subjacentes na sociedade brasileira. O apelido “Aline Patriarca”, amplamente disseminado nas redes sociais, é um exemplo de como sua identidade é filtrada por um viés racializado e de gênero. A ideia de que uma mulher negra que exerce autoridade seja automaticamente associada à opressão e à rigidez remete a construções históricas que negam às mulheres negras a legitimidade da liderança sem que sejam vistas como figuras autoritárias ou agressivas (Collins, 1990). A forma como Aline precisa equilibrar firmeza e empatia para ser aceita revela a complexidade da experiência negra feminina em espaços de poder. Racialidade e Interação Social no Jogo As relações interpessoais dentro do BBB refletem dinâmicas sociais mais amplas e revelam a persistência do racismo estrutural na forma como diferentes corpos são lidos e tratados (Almeida, 2019). A participação de Aline evidencia como a mulher negra é cobrada a demonstrar resiliência emocional e racionalidade, enquanto sua assertividade é frequentemente lida como prepotência. A teoria da dramaturgia social de Goffman (1959) é útil para entender essa dinâmica. No jogo, Aline desempenha diferentes papéis diante de seus colegas de confinamento e do público. No entanto, enquanto participantes brancos podem ser vistos como “estratégicos” ou “emocionais” sem que isso comprometa sua imagem, Aline enfrenta uma dupla penalização: ao ser racional, pode ser taxada de fria e calculista; ao expressar emoção, corre o risco de ser lida como “descontrolada” ou “excessivamente passional”. Esse duplo padrão reflete o racismo estrutural que condiciona a aceitação de corpos negros na esfera pública. A Mídia e a Construção da Imagem Pública de Aline O BBB é, antes de tudo, um espetáculo midiático, onde a edição do programa, os discursos das redes sociais e a cobertura jornalística desempenham papéis fundamentais na construção das imagens públicas dos participantes. A forma como Aline é retratada pelo programa e nas redes sociais não pode ser dissociada das representações midiáticas da mulher negra na cultura brasileira. A mídia historicamente reproduz estereótipos racializados, como a “mulher negra agressiva” (angry Black woman) ou a “mulher negra forte” (strong Black woman), narrativas que desumanizam e retiram da mulher negra a possibilidade da vulnerabilidade (Collins, 1990; Ribeiro, 2017). No caso de Aline, a maneira como sua postura é editada e interpretada pelo público reforça essas construções. Enquanto participantes brancos podem ser retratados de forma multifacetada, mulheres negras frequentemente têm sua complexidade reduzida a arquétipos já consolidados pela mídia. As redes sociais amplificam essas dinâmicas. A militância digital tem um papel fundamental na ressignificação da imagem de Aline, mas também expõe a violência racial que persiste no discurso público. A existência de campanhas organizadas para protegê-la de ataques racistas e o uso de hashtags como forma de resistência revelam a necessidade constante de reafirmação da legitimidade de sua presença no jogo. Opinião Pública, Popularidade e a Instabilidade do Reconhecimento A popularidade de Aline no BBB 25 oscilou ao longo do programa, evidenciando como a aceitação pública de uma mulher negra em posição de destaque é instável e sujeita a variáveis raciais e de gênero. A sociologia da opinião pública (Habermas, 1984) sugere que as preferências da audiência são moldadas não apenas pelas ações dos participantes, mas também por discursos dominantes e estruturas de poder subjacentes. A instabilidade da popularidade de Aline pode ser analisada sob a ótica do conceito de reconhecimento (Fraser, 2001). Em sociedades racializadas, a aceitação de sujeitos negros em espaços de visibilidade pública é frequentemente condicional: são valorizados enquanto cumprem determinados papéis esperados, mas rapidamente rejeitados caso desafiem normas estabelecidas. A ascensão e queda de Aline no favoritismo do público refletem esse padrão, no qual sua presença é constantemente avaliada sob critérios racializados. Conclusão: A Racialidade como Elemento Central da Análise A trajetória de Aline no BBB 25 revela que a construção da personalidade e a percepção pública dos participantes do reality show não podem ser analisadas sem considerar a racialidade. A forma como ela é vista pelo público e representada na mídia reflete padrões históricos de exclusão e estereotipação da mulher negra, que ainda enfrenta barreiras para ser legitimamente reconhecida em espaços de poder e liderança. O BBB, como fenômeno de massa, funciona como um espelho das tensões raciais, de gênero e de classe que estruturam a sociedade brasileira. A análise sociológica da participação de Aline nos permite ir além do entretenimento e compreender como a racialidade influencia a maneira como construímos, interpretamos e julgamos subjetividades negras em espaços de exposição midiática. Afinal, como afirmam pensadoras negras como Lélia Gonzalez e bell hooks, a luta por reconhecimento e representação equitativa é um dos principais desafios das populações negras em sociedades racializadas. Referências ALMEIDA, Silvio. Racismo Estrutural. Pólen, 2019. CARNEIRO, Sueli. A Construção do Outro como Não-Ser. Tese de doutorado, USP, 2003. COLLINS, Patricia Hill. Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness, and the Politics of Empowerment. Routledge, 1990. CRENSHAW, Kimberlé. Demarginalizing the Intersection of Race and Sex. University of Chicago Legal Forum, 1989. FRASER, Nancy. Reconhecimento sem Redistribuição?. Lua Nova, 2001. GONZALEZ, Lélia. Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, 1984. GOFFMAN, Erving. A Representação do Eu na Vida Cotidiana. Vozes, 1959. HABERMAS, Jürgen. Teoria da Ação Comunicativa. Tempo Brasileiro, 1984. RIBEIRO, Djamila. O Que é Lugar de Fala?. Letramento, 2017.

  • Racialidade e o Índice de Equidade Racial nas Empresas (IERE) 2024

    O Índice de Equidade Racial nas Empresas (IERE) é uma ferramenta que busca promover a igualdade racial no ambiente corporativo brasileiro. Publicado pela Iniciativa Empresarial pela Igualdade Racial, o IERE avalia o comprometimento das empresas no enfrentamento ao racismo, utilizando uma metodologia que valoriza a cocriação, o esforço, a materialidade e a transparência. Este ensaio propõe uma análise crítica dos dados do IERE 2024 sob a perspectiva da teoria crítica da racialidade, articulando-os com reflexões de autores que discutem o papel das empresas na reprodução e no combate às desigualdades raciais no Brasil. Desigualdade Racial Estrutural e o Papel das Empresas A teoria crítica da racialidade compreende a raça como uma construção social utilizada para estruturar hierarquias de poder e manter desigualdades. No Brasil, a racialização da sociedade tem raízes no período colonial e escravocrata, e seus efeitos persistem até hoje, manifestando-se em diversas esferas, como educação, mercado de trabalho, saúde e justiça. O IERE 2024, ao apresentar dados sobre a desigualdade racial no Brasil, evidencia como essa estrutura se reproduz no ambiente corporativo. De acordo com o relatório do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) citado no documento, apesar de alguns avanços na educação infantil, a desigualdade racial se acentua nos níveis mais elevados de ensino. Essa disparidade reflete-se no mercado de trabalho, onde negros enfrentam maiores taxas de informalidade, desocupação e sub-representação em cargos de liderança. Nesse contexto, o IERE busca engajar as empresas no enfrentamento ao racismo, reconhecendo seu papel tanto na reprodução quanto na transformação das relações raciais. A inclusão de indicadores de equidade racial no ambiente corporativo não apenas evidencia desigualdades, mas também desafia as empresas a assumirem maior responsabilidade social. Contudo, para que o índice tenha um impacto transformador, é necessário que ele vá além do reconhecimento simbólico e seja incorporado como critério central na governança corporativa, vinculando-se a mecanismos concretos de prestação de contas (accountability racial). Ações Afirmativas, Accountability Racial e a Luta por Equidade O IERE 2024 valoriza o "esforço" das empresas no combate às desigualdades raciais, premiando aquelas que demonstram comprometimento com a causa. Essa perspectiva dialoga com a teoria crítica da racialidade, que defende a importância das ações afirmativas para reparar injustiças históricas e promover equidade racial. Autores como Silvio Almeida (2019) argumentam que o racismo é um fenômeno estrutural, que se manifesta não apenas em atos individuais, mas também em práticas institucionais e normas sociais. Nesse sentido, ações afirmativas são fundamentais para desconstruir barreiras que impedem o acesso de negros a oportunidades educacionais e profissionais. O IERE 2024, ao avaliar políticas de recrutamento, capacitação e ascensão de profissionais negros, estimula as empresas a implementarem medidas concretas de inclusão, como a flexibilização de critérios de recrutamento, a criação de programas de mentoria e o estabelecimento de metas de representatividade. No entanto, é importante questionar até que ponto as empresas estão de fato comprometidas com mudanças estruturais ou se limitam a práticas superficiais de diversidade, sem redistribuição real de poder e recursos. Autoras como Djamila Ribeiro (2019) e Sueli Carneiro (2005) alertam para os riscos do "capitalismo racial", no qual a inclusão de pessoas negras se torna uma estratégia de marketing e branding, sem alterar substancialmente as dinâmicas internas da empresa. Assim, um avanço necessário seria garantir que a equidade racial seja incorporada a processos regulatórios, auditorias independentes e políticas de compliance, tornando a accountability racial um elemento fundamental na governança corporativa. Desafios Estruturais e Perspectivas Futuras Apesar dos avanços observados no IERE 2024, os dados revelam que a equidade racial no mercado de trabalho brasileiro ainda é um desafio a ser superado. A pontuação geral das empresas ainda é baixa, e a representatividade de negros em cargos de liderança permanece insuficiente. Um dos desafios apontados pelo relatório é a questão do recenseamento empresarial. A autodeclaração racial é fundamental para a coleta de dados precisos sobre diversidade nas empresas, mas enfrenta barreiras como baixa adesão, falta de letramento racial e resistência de colaboradores e gestores. Além disso, há a necessidade de aprofundar a análise interseccional da desigualdade racial. O relatório do IPEA destaca como mulheres negras enfrentam desafios específicos, decorrentes da dupla discriminação de gênero e raça. Portanto, é fundamental que as empresas adotem políticas que considerem as particularidades e demandas de diferentes grupos dentro da população negra. Outro aspecto crítico é a relação entre equidade racial e concentração de poder econômico. Para além de ações internas de inclusão, as empresas devem se comprometer com políticas públicas e iniciativas que favoreçam a redistribuição econômica, como o apoio a empreendedores negros e investimentos sociais voltados à redução das desigualdades raciais. Sem esse compromisso, a equidade racial pode se tornar apenas um discurso corporativo sem impacto real na sociedade. A teoria crítica da racialidade nos lembra que a luta por equidade racial é um processo contínuo e complexo, que exige o engajamento de diversos atores sociais. O IERE 2024, ao promover o diálogo e a troca de experiências entre empresas, sociedade civil e setor público, contribui para o avanço desse debate. No entanto, para que sua implementação tenha um impacto transformador, é necessário fortalecer mecanismos de monitoramento e responsabilização, garantindo que a equidade racial seja um critério central e inegociável na estruturação das empresas e na construção de uma economia verdadeiramente inclusiva. Bibliografia: ALMEIDA, Silvio Luiz de.   Racismo estrutural.  São Paulo: Pólen, 2019. CARNEIRO, Sueli.   A construção do outro como não-ser como fundamento do ser.  2005. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005. IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.  Relatórios sobre desigualdades raciais no Brasil. Disponível em:   www.ipea.gov.br . INICIATIVA EMPRESARIAL PELA IGUALDADE RACIAL.   Índice de Equidade Racial nas Empresas (IERE) 2024.  Disponível em:   www.igualdaderacial.com.br . RIBEIRO, Djamila.   Pequeno manual antirracista.  São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

  • A Complexa trama da Brasilidade e Racialidades: Desvendando Mitos e Buscando Igualdade

    A construção da identidade nacional brasileira, a "brasilidade", tem sido historicamente entrelaçada com a questão racial, resultando em um panorama complexo e multifacetado. A narrativa predominante, muitas vezes romantizada, de uma nação miscigenada e harmoniosa mascara as profundas desigualdades raciais que persistem na sociedade brasileira. Desvendar essa trama exige uma análise crítica da construção histórica da "brasilidade" e um reconhecimento das diversas "racialidades" que compõem o Brasil. O mito da democracia racial e suas implicações A ideia de miscigenação, central para a formação da identidade nacional, foi promovida como um símbolo de união e superação das diferenças raciais. No entanto, essa narrativa negligenciou as experiências e lutas dos povos indígenas e africanos, que foram subjugados e explorados durante séculos. A "democracia racial", mito que se instaurou no imaginário brasileiro, serviu para perpetuar a invisibilidade do racismo estrutural e das desigualdades que dele decorrem. Como aponta Silvio Almeida (2019), o racismo no Brasil não se manifesta apenas em atos isolados de preconceito, mas está enraizado nas instituições, na economia e na cultura, dificultando a ascensão social da população negra. Um exemplo concreto dessa desigualdade pode ser visto no mercado de trabalho. Apesar de negros e pardos representarem a maioria da população brasileira (56%, segundo o IBGE), eles continuam sendo minoria em cargos de liderança e ganham, em média, 31% menos do que pessoas brancas que exercem as mesmas funções. Além disso, há uma forte segregação racial em determinadas profissões: enquanto pessoas negras estão mais presentes em empregos precarizados, como empregadas domésticas e trabalhadores informais, cargos de prestígio, como médicos e juízes, são majoritariamente ocupados por brancos (Almeida, 2019). A apropriação e desvalorização das culturas negras e indígenas A "brasilidade", portanto, não pode ser dissociada das "racialidades" que a moldaram. A cultura brasileira, rica e diversa, é fruto da contribuição de diferentes grupos étnico-raciais, especialmente os africanos e indígenas. No entanto, o reconhecimento e a valorização dessas contribuições nem sempre foram equitativos. Durante séculos, elementos da cultura negra e indígena foram apropriados sem o devido reconhecimento, enquanto a cultura branca europeia foi elevada a um patamar de superioridade. Isso pode ser observado na música e na moda. O samba, por exemplo, que hoje é um símbolo da identidade nacional, foi por muito tempo criminalizado e associado à marginalidade. Apenas quando passou a ser aceito pelas elites e apropriado por setores mais privilegiados da sociedade, ganhou status de "tradição brasileira" (Munanga, 2012). Da mesma forma, turbantes, tranças e outras expressões da estética negra, que antes eram motivo de discriminação, tornaram-se tendências da moda quando adotadas por pessoas brancas, muitas vezes sem a devida valorização de suas origens africanas. Desigualdade racial e acesso a direitos básicos As "racialidades" no Brasil são diversas e marcadas por desigualdades gritantes. Negros e indígenas enfrentam discriminação e violência, além de terem menor acesso a oportunidades em áreas como educação, saúde e emprego. Os índices de homicídio ilustram essa realidade: segundo o Atlas da Violência de 2021, jovens negros têm 2,6 vezes mais chances de serem assassinados do que jovens brancos. Essa diferença reflete não apenas o racismo institucional na segurança pública, mas também a vulnerabilidade social imposta à população negra (Carneiro, 2019). Na educação, a desigualdade também é evidente. Embora políticas como as cotas raciais tenham ampliado o acesso de estudantes negros às universidades, ainda há um longo caminho a percorrer. Muitas escolas públicas, frequentadas majoritariamente por alunos negros e indígenas, enfrentam falta de infraestrutura, professores mal remunerados e evasão escolar elevada. Essa precariedade limita as oportunidades desses estudantes e perpetua um ciclo de exclusão social (Schwarcz, 2019). Caminhos para uma brasilidade mais justa A superação do racismo estrutural exige um esforço conjunto da sociedade brasileira. É necessário repensar a construção da identidade nacional, reconhecendo a importância das diversas "racialidades" e combatendo o mito da democracia racial. A valorização das culturas negras e indígenas, o acesso à educação e à saúde para todos, a promoção da igualdade de oportunidades e o combate à violência são medidas essenciais para construir um Brasil mais justo e igualitário. Políticas afirmativas, como as cotas raciais e programas de incentivo ao empreendedorismo negro, são ferramentas fundamentais para reduzir desigualdades históricas. Além disso, a inclusão de uma educação antirracista nas escolas pode ajudar a desconstruir estereótipos e promover uma identidade nacional mais inclusiva e plural. Em suma, a "brasilidade" não pode ser compreendida sem a consideração das "racialidades" que a compõem. A construção de uma identidade nacional mais justa exige o reconhecimento das desigualdades raciais, o combate ao racismo e a valorização da diversidade cultural brasileira. Só assim será possível romper com os mitos que sustentam a exclusão e avançar em direção a uma sociedade verdadeiramente democrática. Bibliografia Abreu, M. (1999). Caminhos da memória e identidade negra. São Paulo: Cortez. Almeida, S. L. de. (2019). Racismo estrutural. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen. Carneiro, S. (2019). Poder patriarcal, racismo e sexismo. São Paulo: Djamba. Munanga, K. (2012). Superando o racismo na escola. São Paulo: Cortez. Schwarcz, L. M. (2019). Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras

  • A violência armada e as racialidades no Brasil: uma análise do relatório do Instituto Fogo Cruzado (2024)

    Introdução A violência armada no Brasil tem sido um problema persistente e complexo, com impactos devastadores nas dinâmicas sociais, políticas e econômicas do país. O Relatório Anual de 2024 do Instituto Fogo Cruzado, ao mapear os episódios de violência armada em quatro regiões metropolitanas — Rio de Janeiro, Recife, Salvador e Belém —, evidencia como esse fenômeno afeta desproporcionalmente determinados grupos populacionais, em especial a população negra. Este ensaio analisa o conteúdo do relatório sob a perspectiva das racialidades, entendendo que a construção social da raça e seus significados são centrais para compreender como a violência armada é distribuída no Brasil. A partir de um referencial teórico que abarca conceitos como necropolítica  (Mbembe, 2018), colonialidade do poder  (Quijano, 2005) e genocídio negro  (Nascimento, 1978), argumenta-se que a violência não é um evento aleatório, mas um processo historicamente estruturado que se insere nas lógicas do racismo estrutural e institucional. 1. Racialidades e a letalidade policial A letalidade policial é um dos principais componentes da violência armada no Brasil. O relatório do Instituto Fogo Cruzado indica que, na Bahia, a polícia estadual é a mais letal do país, um dado que se alinha a padrões históricos de violência racializada no Brasil. Um caso emblemático que ilustra essa dinâmica ocorreu em 2024, quando um policial foi filmado agredindo e atirando contra um adolescente e um jovem negro, resultando em suas mortes. Esse episódio, longe de ser um caso isolado, reflete um padrão mais amplo de atuação policial, em que corpos negros são vistos como alvos legítimos da repressão estatal. O conceito de necropolítica , de Achille Mbembe (2018), ajuda a entender esse fenômeno, ao descrever como o Estado exerce seu poder por meio da gestão da morte, decidindo quais vidas são passíveis de proteção e quais são consideradas descartáveis. Além disso, o relatório evidencia que a letalidade policial não somente mata, mas também dissemina o terror nas comunidades negras, afetando o cotidiano de milhões de pessoas. Crianças crescem sob o som de tiros, famílias perdem entes queridos sem explicação, e a naturalização da violência contribui para a perpetuação de ciclos de pobreza e exclusão. 2. A vulnerabilidade de Quilombos à violência estatal Outro dado relevante do relatório é a vulnerabilidade dos quilombos à violência armada, especialmente no Pará. Entre maio e agosto de 2024, três homens foram mortos em circunstâncias semelhantes durante operações policiais no Quilombo do Cupuaçu. Essas mortes reforçam a permanência de uma lógica de violência contra populações quilombolas, que remonta ao período colonial. A colonialidade do poder, conforme Quijano (2005), explica como os processos de dominação colonial continuam a estruturar as relações sociais contemporâneas. Quilombolas, historicamente associados à resistência, seguem sendo alvo de repressão estatal, e a criminalização dessas comunidades se perpetua por meio de narrativas que os vinculam ao “atraso”, à “ameaça à propriedade” ou à suposta ligação com atividades ilícitas. Além da violência policial, os quilombos enfrentam ameaças de milícias e grupos paramilitares ligados ao agronegócio e ao garimpo ilegal. Esse contexto evidencia que a violência armada nos quilombos não é somente um reflexo da criminalidade urbana, mas parte de um projeto mais amplo de expropriação territorial e exclusão racial. 3. Concentração da violência em áreas de maioria negra Em Salvador, os bairros mais afetados por tiroteios no entorno escolar possuem alta proporção de população negra. O relatório aponta que, em Fazenda Grande do Retiro — onde 86% dos habitantes são negros —, ocorreram 20 tiroteios próximos a escolas em 2024. Esse dado evidencia que a racialidade negra se entrelaça com a geografia urbana, concentrando a violência armada em territórios racializados. A segregação espacial das cidades brasileiras, herança da escravidão e das políticas urbanas excludentes do século XX, continua a definir quem tem direito à segurança e quem vive sob constante ameaça de morte. A ausência de investimentos públicos em infraestrutura, saúde e educação nessas áreas fortalece ciclos de marginalização e vulnerabilidade social. O conceito de racismo ambiental , abordado por autores como Tavares (2021), também pode ser mobilizado aqui. Ele descreve como políticas públicas e ações estatais impactam negativamente grupos racializados ao negligenciar suas necessidades básicas, como saneamento, acesso à água potável e segurança. A violência armada, portanto, deve ser compreendida não apenas como uma questão de segurança pública, mas como um problema estrutural que reflete desigualdades históricas. 4. Subnotificação racial das vítimas e obstáculos à construção de Políticas Públicas Um dos desafios apontados pelo relatório é a subnotificação da raça das vítimas de violência armada. Na Bahia, por exemplo, 57% dos casos registrados em 2024 não incluíam a identificação racial das vítimas. Esse apagamento estatístico dificulta a formulação de políticas públicas eficazes e contribui para a invisibilização do impacto racial da violência. A ausência de dados desagregados por raça não é acidental, mas reflete uma tradição de omissão do Estado brasileiro em reconhecer o racismo como um fator central na produção da violência. Como destaca a socióloga Vilma Reis (2020), a produção de dados raciais na segurança pública é uma ferramenta essencial para desmantelar o mito da democracia racial e evidenciar as desigualdades estruturais que sustentam a violência contra negros. Discussão A análise do relatório do Instituto Fogo Cruzado à luz das racialidades revela que a violência armada no Brasil não se distribui de forma aleatória, mas se concentra em grupos racializados específicos. A letalidade policial contra negros, a vulnerabilidade de quilombos e a concentração da violência em áreas de maioria negra demonstram como as racialidades moldam as experiências de violência e vitimização. Além disso, a subnotificação de dados raciais mostra que o racismo opera também na esfera da produção do conhecimento, dificultando a elaboração de políticas públicas baseadas em evidências. Recomendações Superar a violência armada no Brasil exige reconhecer e enfrentar o racismo estrutural que permeia as instituições e as práticas sociais. Algumas ações fundamentais incluem: Produção de dados desagregados por raça : ampliar a coleta e divulgação de informações sobre a identidade racial das vítimas para possibilitar a formulação de políticas públicas mais precisas. Revisão das práticas policiais : implementar protocolos de desmilitarização e combate à letalidade policial, garantindo mecanismos eficazes de responsabilização. Investimento em territórios racializados : direcionar recursos para educação, saúde e infraestrutura em áreas de maioria negra, combatendo as desigualdades socioespaciais que perpetuam a violência. Proteção dos quilombos : criar medidas específicas para proteger comunidades quilombolas contra a violência estatal e privada, garantindo seus direitos territoriais e culturais. A construção de uma sociedade mais justa e igualitária depende da garantia da segurança e da justiça para todos, independentemente da cor da pele. Bibliografia Instituto Fogo Cruzado. (2025). Relatório Anual 2024. Rio de Janeiro: Instituto Fogo Cruzado. Mbembe, A. (2018). Necropolítica . São Paulo: n-1 edições. Nascimento, A. (1978). O Genocídio do Negro Brasileiro . Rio de Janeiro: Paz e Terra. Quijano, A. (2005). Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina . Buenos Aires: Clacso. Reis, V. (2020). Segurança pública e racismo no Brasil . Salvador: Edufba. Tavares, A. (2021). Racismo ambiental e desigualdade social no Brasil . São Paulo: Fundação Perseu Abramo.

!
bottom of page