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- O Debate continua: 3 pontos essenciais sobre "A Questão do Pardo no Brasil" após nossa roda de conversa
No último dia 14 de junho, a Livraria Pandora, juntamente com o Club Palmares tiveram a honra de ser palco de um encontro potente, afetivo e instigante. Recebemos com imensa alegria a professora e socióloga Drª Flávia Rios, autora da obra "A questão do pardo no Brasil" (Bregantini, 2025), para uma Roda de Conversa que mobilizou reflexões profundas e sensíveis sobre identidade racial, política, memória e pertencimento. O evento, realizado no Clube Palmeiras, em Volta Redonda, contou com um auditório cheio, olhares atentos, comentários calorosos e perguntas provocadoras que revelaram a urgência e a densidade desse debate. Agradecemos imensamente a todas as pessoas presentes — estudantes, pesquisadores, militantes, professores e curiosos atentos — que fizeram da roda um espaço verdadeiramente coletivo de escuta e construção. A energia trocada naquela tarde não se dissipou: ela se transformou em necessidade de continuidade. E é justamente isso que pretendemos com este texto. Queremos manter a roda girando. A seguir, destacamos três pontos essenciais que emergiram com força durante nossa conversa e que merecem aprofundamento à luz do livro de Flávia Rios. Esses tópicos não encerram o debate — pelo contrário, abrem novas veredas de reflexão, como trilhas ainda a serem desbravadas. A Perspectiva Indígena e o desmonte da Mestiçagem como Mito Unívoco Um dos elementos mais inovadores da obra de Flávia Rios é a inclusão consistente da perspectiva indígena na análise da identidade parda. Em um campo frequentemente dominado pela dicotomia branco-negro — muitas vezes reforçada pelas próprias lógicas do Estado e do mercado —, o livro tensiona essa bipolaridade e exige que olhemos para as camadas de apagamento histórico e epistemológico dos povos indígenas na formação social brasileira. Na roda de conversa, esse ponto reverberou em várias falas do público. Como pensar a categoria “pardo” sem reproduzir os apagamentos coloniais que sustentaram a ideologia da mestiçagem como “solução” para a diversidade racial no Brasil? Como escutar as vozes indígenas presentes nos corpos, nos sobrenomes, nos territórios e nos silêncios de tantos brasileiros que carregam essa designação racial sem, muitas vezes, compreender seu conteúdo histórico e político? Rios nos provoca a encarar a mestiçagem não como um destino inevitável ou como uma riqueza inquestionável, mas como uma tecnologia social e política que, em nome da harmonia racial, neutraliza conflitos, apaga assimetrias e impõe narrativas normativas sobre pertencimento. A inclusão da dimensão indígena, portanto, não é mero adendo identitário — é deslocamento epistemológico. Ela obriga o leitor a interrogar os próprios pressupostos do pensamento racial brasileiro e a considerar a complexidade de heranças, violências e reinvenções que constituem o sujeito pardo no país. Parditude e Políticas Afirmativas: Identidade, Disputa e Reconhecimento Outro ponto que gerou intenso debate durante o evento foi a relação — frequentemente tensa e atravessada por disputas — entre identidade parda e acesso às políticas afirmativas, especialmente no contexto das cotas raciais no ensino superior e no serviço público. Flávia Rios aborda com firmeza esse tema no livro, desnaturalizando os argumentos tanto daqueles que veem os pardos como "infiltrados" no sistema de cotas quanto dos que defendem uma suposta homogeneidade do grupo negro. Ela propõe um olhar interseccional e crítico que reconhece as múltiplas formas de racialização vividas pelos pardos, com suas especificidades regionais, fenotípicas, históricas e socioeconômicas. Na prática, o que está em jogo é o acesso a direitos em um país onde a desigualdade racial é estrutural — mas onde a própria noção de “raça” é fluida, ambígua e muitas vezes negada. Como definir quem pode ou não ser beneficiário de ações afirmativas sem cair em essencialismos ou criar critérios arbitrários? Como garantir a justiça racial sem reforçar mecanismos de exclusão e policiamento racial entre os próprios sujeitos negros? Essas perguntas não têm respostas simples. Mas o livro de Rios oferece ferramentas teóricas e empíricas sólidas para pensar o problema, especialmente a partir de dados do IBGE, entrevistas e observações sobre o funcionamento das comissões de heteroidentificação. Em vez de optar por soluções fáceis, a autora propõe um caminho de análise crítico, comprometido com a justiça e com a complexidade da experiência social. Essa abordagem foi muito bem recebida na roda, especialmente por estudantes e profissionais que vivem na pele as ambiguidades do reconhecimento racial no Brasil. O debate revelou que a questão do pardo é também — e profundamente — uma questão de justiça social e de disputas por lugar, voz e memória. Para além da roda: o livro como ferramenta de pensamento e transformação Por fim, este post não poderia terminar sem reforçar o convite à leitura integral da obra “A questão do pardo no Brasil”. Como ficou claro na conversa com a autora, o livro não é apenas uma análise sociológica sobre classificações raciais: é um gesto de descolonização do olhar, uma tentativa de romper com os lugares-comuns do pensamento sobre raça no Brasil. Longe de propor definições fixas ou categorias estanques, Flávia Rios nos oferece um livro que pensa com e contra os dados, que escuta as tensões do campo e que valoriza o dissenso como parte do processo de produção de conhecimento. É uma obra que fala com os estudos sobre racialização, com os movimentos sociais, com as políticas públicas, mas também com as pessoas que vivem o impasse da identidade parda no cotidiano. Se você esteve na roda de conversa e saiu com perguntas borbulhando na cabeça, esse livro é o seu próximo passo. Se você não esteve, mas se interessa por debates raciais, políticas de identidade e desafios epistemológicos, essa leitura é urgente. Convidamos todas e todos a continuarem esse debate nos comentários deste post ou no fórum da Livraria Pandora, onde teremos espaço aberto para partilha, crítica, discordância e afeto. Porque, como bem sabemos, o pensamento se fortalece quando é coletivo. “Já leu ‘A questão do pardo no Brasil’? Vem com a gente nessa conversa que continua!”
- Desvendando o Brasil: Por que "A Questão do Pardo" é leitura essencial?
Em um momento crucial para o aprofundamento dos debates sobre identidade, pertencimento e justiça racial no Brasil, a Livraria Pandora tem a satisfação de destacar uma obra destinada a se tornar referência: "A questão do pardo no Brasil", organizada pela renomada professora e pesquisadora Dr.ª Flávia Rios. Este livro não apenas revisita e expande as discussões incitadas pelo influente dossiê "Os pardos em questão" (revista Cult, 2024), mas se aventura a propor novas chaves de leitura, cruciais para decifrar os complexos significados e as profundas implicações da categoria "pardo" no multifacetado tecido racial, político e histórico do nosso país. A obra impressiona pela densidade analítica e pela coragem de reunir vozes plurais – incluindo, de forma inovadora e necessária, pesquisadores e pesquisadoras indígenas – que tensionam e enriquecem o debate sobre os limites e as possibilidades da mestiçagem e da racialização. A mestiçagem, como o livro tão bem articula, é uma "pedra de toque", um elemento angular na formação e na contínua reinvenção da sociedade brasileira. Historicamente, o Brasil ergueu sua autoimagem sob o signo da miscigenação, frequentemente idealizada como emblema de uma singular harmonia racial. No entanto, como a pesquisa crítica e os estudos contemporâneos sobre relações raciais vêm denunciando há décadas, essa mestiçagem teve seu marco inicial em um ato de profunda violência – violência sexual, racial e colonial – que inscreveu, desde os primórdios, a hierarquia e a desigualdade como estruturas fundantes do país. Como nos lembra Lélia Gonzalez, ao analisar a formação social brasileira, a figura da mucama e do estupro colonial são elementos constitutivos dessa "neurose cultural brasileira" em torno da raça e do sexo. Nesse cenário intrincado, a categoria "pardo" emerge como um marcador identitário ambíguo, historicamente fluido e, não raro, instrumentalizado por projetos políticos de branqueamento, assimilação forçada ou mesmo apagamento das identidades e especificidades negras e indígenas. O livro organizado por Flávia Rios disseca com maestria como a noção de "pardo" sempre foi um terreno de disputas semânticas, maleável e regionalmente situado. Ao longo de diferentes épocas e nos mais diversos rincões do Brasil, o termo foi utilizado para abarcar indivíduos com uma vasta gama de ascendências e características fenotípicas. Essa notável flexibilidade, contudo, como a obra sublinha, jamais diluiu uma constante fundamental: a indicação da não-pertença ao grupo branco hegemônico. Ou seja, independentemente das modulações e das autodeclarações, a identidade parda, em sua trajetória histórica, esteve consistentemente associada à exclusão dos privilégios inerentes à branquitude e à negação de um pertencimento pleno à cidadania racial e social. Nesse sentido, "A questão do pardo no Brasil" enfatiza a urgência incontornável de se discutir quem é o sujeito pardo no Brasil contemporâneo, especialmente num contexto em que as ações afirmativas – como as cotas raciais em universidades e concursos, e outras políticas de reparação histórica – ganham merecida centralidade no debate público e na agenda política. A proeminência dessa questão é, em grande medida, fruto da incansável mobilização dos movimentos negros que, ao longo das últimas décadas, têm compelido o Estado brasileiro e a sociedade a confrontar e reconhecer o racismo estrutural e institucional que afeta a vasta maioria da população. Assim, a categoria "pardo", longe de ser uma mera nomenclatura censitária do IBGE, revela-se como um complexo campo de disputas políticas, identitárias, epistêmicas e de direitos. O livro, portanto, transcende o exercício conceitual. Ele se lança ao desafio de retratar a vida, as experiências e as subjetividades da maior parcela da população brasileira – aqueles que se identificam ou são identificados como pardos. Ao fazê-lo, a obra não apenas oferece uma releitura crítica do nosso passado colonial e escravocrata, mas também projeta luz sobre os intrincados dilemas contemporâneos da democracia racial (ou sua ausência) e das políticas de identidade. A pluralidade de autores e autoras de renome, cuidadosamente reunidos por Flávia Rios, confere ao livro um caráter interdisciplinar e interseccional profundamente enriquecedor. Permite que diferentes perspectivas – sociológica, histórica, antropológica, jurídica, política e, crucialmente, indígena – dialoguem de forma produtiva sobre os múltiplos sentidos, os usos estratégicos e os limites da mestiçagem como suposto fundamento da identidade nacional. O resultado é uma obra robusta, provocadora e, sem dúvida, indispensável para quem deseja mergulhar com seriedade na complexidade das relações raciais no Brasil. "A questão do pardo no Brasil" oferece, acima de tudo, um convite irrecusável à revisão crítica de uma das categorias mais controversas, fluidas e, ao mesmo tempo, decisivas para a engrenagem da desigualdade racial brasileira. Ao trazer à tona a historicidade, a multiplicidade e a persistência dessa categoria, o livro reforça que qualquer debate sério sobre a racialização no Brasil do século XXI não pode prescindir de uma reflexão profunda e honesta sobre quem são – e como são vistos e se veem – os sujeitos pardos em uma sociedade ainda tão profundamente marcada por séculos de exclusão e racismo. Por todas essas razões, a obra interessa profundamente a todos e todas que não se furtam a enfrentar, com rigor intelectual e comprometimento ético-político, os desafios da construção de uma verdadeira justiça racial no país. Ao articular teoria crítica de ponta, análise empírica consistente e um claro compromisso com a transformação social, "A questão do pardo no Brasil" se afirma como leitura obrigatória e urgente para estudantes, pesquisadores, educadores, militantes de movimentos sociais e formuladores de políticas públicas. Trata-se de um livro que, ao mesmo tempo em que nos obriga a revisitar criticamente a história, nos convoca a repensar e a construir ativamente o futuro das relações raciais no Brasil. E você, como percebe a "questão do pardo" em seu cotidiano e nos debates atuais? Compartilhe suas reflexões nos comentários!
- Pele Negra, Máscaras Brancas: A análise de Fanon sobre Alienação e Racismo
Frantz Fanon (1925-1961), psiquiatra martinicano, filósofo anticolonial e militante revolucionário, ocupa um lugar central no pensamento crítico do século XX e XXI. Sua obra seminal, Pele Negra, Máscaras Brancas (1952), permanece um marco incontornável na compreensão das subjetividades colonizadas e dos efeitos psíquicos devastadores do racismo sobre a população negra. Escrito a partir de sua vivência como homem negro nas Antilhas Francesas e na metrópole europeia, bem como de sua formação clínica e filosófica, o livro constitui um profundo e, por vezes, doloroso exame das estruturas de dominação racial e de como estas são introjetadas pelo sujeito negro, produzindo um estado de alienação existencial e cultural. Como Fanon coloca na introdução, seu objetivo é claro: "O que queremos é ajudar o negro a se libertar do arsenal de complexos que foram germinados no seio da situação colonial." Neste ensaio, exploraremos como Fanon articula a noção de alienação racial, especialmente no que diz respeito à internalização do olhar branco, ao papel crucial da linguagem nesse processo e à busca por desalienação como um imperativo político e psíquico. Também discutiremos a impressionante atualidade do pensamento fanoniano diante dos desafios contemporâneos nas áreas da saúde mental, da identidade negra e das lutas decoloniais. A Alienação como Efeito do Racismo Colonial Para Fanon, o racismo não é apenas um sistema de discriminação externa: ele opera como uma máquina de produção de subjetividades fraturadas. O sujeito negro, inserido num mundo estruturado pela supremacia branca, é compelido a se ver por meio dos olhos do colonizador. Em Pele Negra, Máscaras Brancas, Fanon descreve como o negro colonizado é capturado pelo olhar branco — um olhar que o reduz, o animaliza, o inferioriza, que o fixa em estereótipos. Esse olhar não é apenas uma metáfora: ele se materializa em instituições, discursos, práticas e relações sociais que moldam o psiquismo do indivíduo negro desde a infância. Nesse processo, ocorre uma cisão profunda. O sujeito negro, ao tentar sobreviver em uma sociedade que o rejeita, assume "máscaras brancas", isto é, tenta se adaptar, mimetizar e até identificar-se com o opressor, buscando aprovação e pertencimento no mundo branco. Mas essa adaptação vem com um alto custo psíquico: ela implica a negação de si, de sua cultura, de sua história, de sua linguagem. Nas palavras cortantes de Fanon, o drama é que, para o negro colonizado, "só há um destino. E é branco." Isso resulta num sentimento de inadequação constante, de não-lugar, de uma alienação que corrói a alma. A alienação, para Fanon, é portanto um duplo exílio: o negro é excluído do mundo branco que tenta desesperadamente alcançar, mas também é forçado a se afastar de si mesmo, de suas raízes. Ele vive num "entre-lugar" que não lhe permite ser inteiro, onde sua subjetividade é marcada pelo peso de um racismo internalizado. Linguagem: a Marca da Colonização do Inconsciente Um dos capítulos mais impactantes de Pele Negra, Máscaras Brancas é "O Negro e a Linguagem". A linguagem, como elemento estruturante do inconsciente e das relações sociais, é para Fanon um dos principais mecanismos de dominação colonial e racial. Afinal, como ele escreve, "Falar é existir absolutamente para o outro." Falar a língua do colonizador – no caso de Fanon, o francês na Martinica – não é apenas um ato comunicativo: é um marcador de status, civilidade, inteligência e proximidade com o ideal branco hegemônico. Fanon mostra que o sujeito negro é ensinado, desde cedo, que sua fala originária (o crioulo, no seu contexto) é "imperfeita", "inculta", "primitiva". Ao buscar a correção linguística segundo o padrão europeu, o negro tenta afirmar sua humanidade em um mundo que a nega estruturalmente. Contudo, ao fazê-lo, muitas vezes abandona suas raízes, sua musicalidade, sua ancestralidade linguística. A linguagem, assim, torna-se um campo de batalha psíquico e social: ou se fala como o branco e se trai a si mesmo, ou se fala como o negro (ou com as marcas dessa origem) e se é rebaixado e estigmatizado. Trata-se de uma armadilha colonial que fere profundamente a autoestima e a identidade do sujeito. Neste sentido, Fanon antecipa uma crítica que será central para pensadoras e pensadores decoloniais: a linguagem não é neutra, mas carregada de poder, e a luta contra o colonialismo e o racismo passa também por uma luta pela descolonização da linguagem, pela recuperação de modos próprios de falar, narrar e existir. Desalienação como Projeto Psíquico e Político Apesar de diagnosticar com clareza cirúrgica o sofrimento do sujeito negro sob o jugo da colonialidade, Fanon não se limita à denúncia. Sua obra é, fundamentalmente, uma busca por caminhos de desalienação, uma libertação que é tanto individual quanto coletiva. Esse processo, no entanto, não se dá apenas por meio de uma reconfiguração psíquica isolada: ele exige uma ruptura radical com as estruturas materiais e simbólicas que produzem a alienação. A desalienação fanoniana é, assim, um movimento revolucionário. Ela exige a libertação material, política e cultural dos povos colonizados e racializados. Em Os Condenados da Terra (1961), Fanon radicaliza essa posição ao analisar a violência colonial e argumentar sobre a necessidade da luta de libertação nacional como um processo de reconstituição da subjetividade ferida. Para ele, o colonialismo não se desfaz com concessões ou reformas; ele precisa ser confrontado e destruído para que novas formas de vida e um novo humanismo possam emergir. A meta, como ele clama ao final de Os Condenados da Terra, é decididamente "criar um homem novo", livre das opressões coloniais e raciais. Atualidade de Fanon: Saúde Mental, Identidade Negra e Lutas Decoloniais A obra de Fanon segue com uma vitalidade impressionante para pensar os dilemas contemporâneos da população negra e de outros grupos racializados. As discussões sobre saúde mental, por exemplo, têm sido profundamente enriquecidas por sua análise pioneira da psicopatologia ligada ao racismo. A experiência de viver em uma sociedade que continuamente nega, violenta ou estereotipa a humanidade do negro gera traumas, angústias e sofrimentos psíquicos específicos, muitas vezes invisibilizadas ou mal diagnosticadas pelo discurso psiquiátrico tradicional eurocêntrico. A articulação entre racismo estrutural e sofrimento psíquico, que Fanon antecipou, hoje é tema central em iniciativas de cuidado em saúde mental com enfoque antirracista, que se apoiam em sua obra para repensar práticas clínicas e institucionais. No campo da identidade, Fanon também permanece indispensável. Sua análise da "dupla consciência" vivida pelo negro (em diálogo com W.E.B. Du Bois) ressoa nas experiências atuais de deslocamento, fragmentação e reinvenção da identidade negra em sociedades ainda marcadas pelo racismo. Ao apontar para a possibilidade de um "homem novo", Fanon inspira projetos políticos e culturais que buscam reimaginar o futuro a partir de epistemologias negras, indígenas e decoloniais. Considerações Finais: Frantz Fanon Vive Frantz Fanon não foi apenas um intelectual; foi um combatente que pensou com o corpo, com a experiência, com a urgência da transformação social. Pele Negra, Máscaras Brancas é uma obra que continua a provocar, a inquietar e a iluminar. Sua análise da alienação racial é, infelizmente, ainda dolorosamente atual, e sua proposta de desalienação, de uma libertação integral do ser negro, continua a ser uma tarefa inacabada e urgente. Num tempo em que os racismos se reinventam sob novas máscaras, em que a saúde mental da população negra é uma questão de saúde pública negligenciada e em que a luta por decolonização ganha força global, retornar a Fanon é mais do que necessário: é vital. Que ressoe seu apelo final em Pele Negra, Máscaras Brancas: "Ó meu corpo, faça de mim um homem que sempre questione!" Suas obras seguem como guias indispensáveis para o pensamento e para a ação. Leituras, experiências com Fanon, reflexões? Compartilhe suas ideias nos comentários abaixo! 👇 Referências Bibliográficas: FANON, Frantz. Os condenados da terra. Tradução de Enilce Albergaria Rocha e Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008. BENTO, Cida. O Pacto da Branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. KILOMBA, Grada. Memórias da Plantação: Episódios de Racismo Cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019. MBEMBE, Achille. Crítica da Razão Negra. São Paulo: n-1 edições, 2018.
- Uma Língua, muitos mundos: A riqueza da Literatura em Português neste 5 de Maio
Neste dia 5 de maio, celebramos o Dia Mundial da Língua Portuguesa, data instituída pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e reconhecida pela UNESCO. Homenageamos não apenas um idioma formalmente partilhado, mas um patrimônio cultural imaterial vivo, plural e em constante transformação. Mais do que um instrumento de comunicação, a língua portuguesa é um território simbólico complexo; ao longo de séculos, essa língua cruzou oceanos, redesenhou mapas, foi instrumento de um império e de seus embates, mas também se tornou ferramenta de resistência, apropriação e expressão para os povos que hoje a habitam em suas múltiplas variantes, sotaques, léxicos e formas de ser e estar no mundo. A língua portuguesa é falada por mais de 260 milhões de pessoas em todos os continentes, sendo língua oficial em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, além 1 de ter presença em Macau e outros espaços. Essa presença global não anula sua heterogeneidade interna, mas a reforça. Como bem expressa o linguista Marcos Bagno (2007), “não existe uma única língua portuguesa, mas muitas línguas sob o mesmo nome”. Cada território inscreve na língua seus traços próprios, marcas de resistência ao apagamento colonial, recriações poéticas e políticas. A pluralidade é, portanto, constitutiva da própria língua. Nesse contexto, a literatura surge como um espaço privilegiado para dar corpo e voz a essa diversidade. Por meio da escrita literária, os mundos em português se mostram múltiplos, contraditórios, densos de memórias e projeções. A literatura não apenas espelha a língua falada nos diversos contextos socioculturais, mas também a transforma, subverte e reencanta. Ela é campo de invenção e de crítica, de denúncia e de imaginação. Como afirma Conceição Evaristo, “nossa escrevivência não se dá fora da vida, mas é nela que a gente escreve o mundo” (EVARISTO, 2013). A linguagem, nesse sentido, é também um ato de resistência e afirmação identitária frente aos legados de opressão. No Brasil, essa potência é visível na obra de autoras como Conceição Evaristo, cuja escrita, marcada por uma poética da dor e da memória, dá visibilidade à experiência da mulher negra periférica. Em Ponciá Vicêncio, a linguagem se torna veículo de uma subjetividade silenciada. Carolina Maria de Jesus, por sua vez, em Quarto de Despejo, introduz a voz da favela na literatura brasileira, desafiando tanto o cânone quanto as hierarquias da língua. Itamar Vieira Jr., em Torto Arado, alia denúncia social e ancestralidade, colocando a oralidade e os dilemas raciais no centro da narrativa. Em Angola, a literatura é profundamente marcada pela experiência colonial e pela luta de libertação. Agostinho Neto, poeta e primeiro presidente, sintetiza em sua poesia o engajamento político: “não temos nada a perder / senão a vida / e a vida sem liberdade / nada vale”. Pepetela, em obras como Mayombe, cria personagens complexos no processo revolucionário. Ondjaki, com sua escrita híbrida e lírica, como em Os Transparentes, mistura realismo e fabulação para narrar a Angola pós-guerra. Em Moçambique, o cruzamento cultural, a guerra e a reconstrução são temas recorrentes. Mia Couto se destaca por sua linguagem inventiva em obras como Terra Sonâmbula. Paulina Chiziane, primeira romancista do país, questiona papéis de gênero e tradições em livros como Niketche: Uma História de Poligamia. José Craveirinha, grande poeta da liberdade, fez da palavra um instrumento de denúncia e sonho. Cabo Verde, arquipélago da diáspora e da música, expressa sua identidade mestiça. Germano Almeida, em O Testamento do Sr. Napumoceno, combina humor e crítica social. Orlanda Amarílis, voz feminina pioneira, explora os desafios da emigração em obras como Cais-do-Sodré té Salamansa. Portugal, embora origem histórica, hoje dialoga neste espaço policêntrico. José Saramago, Nobel de Literatura, desafiou convenções formais e políticas em obras como Ensaio sobre a Cegueira. Sophia de Mello Breyner, com sua poesia ética, conjugou o mar e a liberdade. Valter Hugo Mãe, voz contemporânea, experimenta com a linguagem para dizer o mundo de outras formas. Essa pluralidade se estende ainda à Guiné-Bissau, onde a reflexão de Amílcar Cabral sobre cultura e libertação deixou marcas profundas também na literatura; a São Tomé e Príncipe, com sua literatura insular explorando os legados da plantation; e ao Timor-Leste, que também constrói sua expressão literária em português, muitas vezes marcada pela experiência da ocupação e resistência. Esses autores e autoras nos mostram que ler a literatura da lusofonia é entrar em contato com muitos mundos que falam a mesma língua de formas diversas. É entender que o português é um idioma habitado por lutas, memórias, afetos, opressões e resistências. É ampliar horizontes, deslocar perspectivas, repensar fronteiras. Em tempos de homogeneização cultural, a literatura em português nos oferece um caleidoscópio de realidades que se entrelaçam sem se apagar. Neste 5 de maio, celebrar a língua portuguesa é reconhecer a pluralidade de seus falantes e criadores. É fazer da leitura um ato de escuta e de encontro. É afirmar que, como disse Mia Couto, “as línguas só têm sentido se servirem para aproximar as pessoas, não para afastá-las”. Ler autores e autoras de toda a lusofonia é, portanto, uma forma de tecer pontes entre nossos muitos mundos. Referências Bibliográficas (Formato ABNT) ALMEIDA, Germano. O Testamento do Sr. Napumoceno . Lisboa: Caminho, 1989. AMARÍLIS, Orlanda. Cais-do-Sodré té Salamansa . Lisboa: INCM, 1974. ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. Poesia e realidade . Lisboa: Ática, 1967. BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico : o que é, como se faz. São Paulo: Edições Loyola, 2007. CHIZIANE, Paulina. Niketche : uma história de poligamia. Lisboa: Caminho, 2000. COUTO, Mia. Terra Sonâmbula . Lisboa: Caminho, 1992. EVARISTO, Conceição. Olhos d’água . Rio de Janeiro: Pallas, 2013. JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo : diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2014. MÃE, Valter Hugo. o remorso de baltazar serapião . Lisboa: Quetzal, 2006. NETO, Agostinho. Sagrada Esperança . Lisboa: Sá da Costa, 1974. ONDJAKI. Os transparentes . Lisboa: Dom Quixote, 2012. PEPETELA. Mayombe . Lisboa: Dom Quixote, 1980. SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira . São Paulo: Companhia das Letras, 1995. VIEIRA JÚNIOR, Itamar. Torto arado . São Paulo: Todavia, 2019.
- A Cor da Luta: racialidades, a herança da escravidão e o dia do Trabalhador no Brasil
O 1º de Maio, Dia Internacional do Trabalhador, é celebrado em diversas partes do mundo como um marco das conquistas sociais da classe trabalhadora. No Brasil, contudo, essa data carrega uma carga histórica particular, marcada pela omissão de um dos pilares que sustentaram a economia e a estrutura social do país por mais de três séculos: a escravidão negra. A construção do mundo do trabalho no Brasil é indissociável das relações raciais e da herança colonial escravocrata que moldou as bases da sociedade. Nesse sentido, é impossível compreender a gênese e o desenvolvimento da classe trabalhadora brasileira sem considerar a centralidade da população negra e a permanência das estruturas de desigualdade racial que derivam da escravidão. A escravidão no Brasil, como destaca Angela Davis (2016), foi mais do que um regime de exploração econômica – tratou-se de um sistema de desumanização meticulosamente institucionalizado. “A escravidão racial, sobretudo no contexto americano e latino-americano, não apenas explorava corpos, mas destruía culturas, apagava identidades e impunha uma ordem social baseada na subjugação racial” (DAVIS, 2016, p. 28). O Brasil foi o maior destino de africanos escravizados nas Américas, recebendo cerca de 40% dos mais de 12 milhões de homens, mulheres e crianças sequestrados do continente africano (SCHWARCZ; GOMES, 2019). A escravidão brasileira não era apenas uma prática econômica: era uma lógica de organização social, política e simbólica que naturalizou a subalternidade da população negra e sua exclusão dos direitos mais elementares. A resistência negra, contudo, jamais foi passiva. Como afirma Clóvis Moura (1999), “a história do negro no Brasil é, antes de tudo, uma história de luta”. Os quilombos, as revoltas urbanas e rurais, as fugas e as pequenas insubordinações cotidianas nas senzalas e nas lavouras são expressões de uma consciência política e coletiva que desafiou constantemente a ordem escravocrata. O Quilombo dos Palmares, por exemplo, constitui o maior símbolo dessa resistência, com sua organização política autônoma e sua defesa armada da liberdade. As Revoltas dos Malês (1835), lideradas por negros muçulmanos em Salvador, revelam não apenas um levante contra a escravidão, mas uma insurgência marcada por organização militar e fundamentação religiosa e cultural própria. A abolição da escravidão, em 13 de maio de 1888, representou mais um ato simbólico do que uma transformação estrutural. Conforme argumenta Abdias do Nascimento (2009), “a Lei Áurea libertou os negros, mas não os integrou à cidadania”. Não houve políticas de reparação, de inclusão social ou de acesso à terra, educação e trabalho. Pelo contrário, o Estado brasileiro promoveu políticas imigratórias voltadas para europeus, com o objetivo deliberado de “branquear” a força de trabalho e a população brasileira. Essa ideologia do branqueamento, como aponta Lilia Moritz Schwarcz (1993), reforçou a exclusão dos negros e naturalizou sua posição social marginalizada. Nesse contexto, o surgimento do movimento operário brasileiro, a partir do final do século XIX e início do século XX, embora influenciado por ideologias progressistas como o socialismo e o anarquismo, reproduziu muitas vezes o racismo da sociedade da época. Os sindicatos e associações operárias, em grande parte organizadas por imigrantes europeus, não incorporaram a questão racial em suas pautas e, muitas vezes, excluíram explicitamente os trabalhadores negros. Como revela a historiadora Amilcar Pereira (2019), “a universalização do ‘trabalhador’ como sujeito político ocultou as hierarquias raciais existentes no mundo do trabalho e apagou a experiência dos trabalhadores negros”. O 1º de Maio, cuja origem remonta à greve dos operários de Chicago em 1886, foi incorporado ao calendário político brasileiro como uma data de luta e também de cooptação, especialmente a partir do Estado Novo (1937-1945), quando Getúlio Vargas oficializou a celebração e procurou controlá-la através de um discurso corporativista e paternalista. No entanto, para os trabalhadores negros, essa data frequentemente revelou-se ambígua: símbolo de uma luta necessária, mas também memória de uma exclusão persistente. Enquanto o operariado branco urbano avançava em direitos e reconhecimento, a população negra era relegada ao trabalho informal, doméstico, rural ou subalternizado. As desigualdades raciais no mundo do trabalho persistem até os dias atuais. Segundo dados do IBGE (2023), os trabalhadores negros ganham, em média, 40% menos que os brancos, mesmo quando possuem escolaridade semelhante. As mulheres negras, em especial, estão na base da pirâmide ocupacional, concentradas em trabalhos domésticos e precários. Isso revela o que Silvio Almeida (2019) denomina de “racismo estrutural”: uma lógica sistêmica que “transcende os indivíduos e está incorporada nas instituições, práticas e discursos que regulam a sociedade”. A luta por direitos trabalhistas no Brasil, portanto, precisa ser reconceituada a partir de uma perspectiva interseccional que considere o impacto das racialidades. Não basta falar em igualdade de direitos trabalhistas sem enfrentar as desigualdades raciais que estruturam o mercado de trabalho. Como aponta Sueli Carneiro (2003), “a neutralidade racial das políticas públicas é uma forma sofisticada de reprodução das desigualdades”. A luta antirracista é, assim, um componente essencial da luta de classes no Brasil. A memória da resistência negra – dos quilombos às greves operárias, das empregadas domésticas às lideranças de movimentos sociais contemporâneos – deve ocupar lugar central na celebração do Dia do Trabalhador. Reconhecer que a construção do Brasil se deu sobre os ombros, as mãos e o sangue de milhões de pessoas negras é um passo fundamental para construir uma sociedade justa. O 1º de Maio precisa deixar de ser um ritual vazio ou excludente para tornar-se um ato político radical de rememoração, denúncia e compromisso com a justiça social e racial. A verdadeira emancipação do trabalho no Brasil só será possível quando se romperem as amarras do racismo estrutural e se reconfigurar o conceito de trabalhador, incorporando sua diversidade étnico-racial e suas lutas específicas. Como escreveu Frantz Fanon (2008), “cada geração deve, a partir de uma relativa opacidade, descobrir sua missão, cumpri-la ou traí-la”. Cumprir a missão de uma luta trabalhista verdadeiramente inclusiva e emancipadora exige, no Brasil, dar cor à luta. A cor da luta é negra, é a cor da justiça, da dignidade e da transformação. Bibliografia ALMEIDA, Silvio. Racismo Estrutural. São Paulo: Pólen, 2019. CARNEIRO, Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. Tese (Doutorado em Educação) – USP, 2003. DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016. FANON, Frantz. Os condenados da terra. São Paulo: Editora Civilização Brasileira, 2008. MOURA, Clóvis. Rebeliões da Senzala: quilombos, insurreições, guerrilhas. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1999. NASCIMENTO, Abdias do. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. São Paulo: Perspectiva, 2009. PEREIRA, Amilcar. O ensino de história e a cultura afro-brasileira. Rio de Janeiro: Pallas, 2019. SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e a questão racial no Brasil – 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. SCHWARCZ, Lilia; GOMES, Flávio dos Santos. Dicionário da escravidão e liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. IBGE. Síntese de Indicadores Sociais 2023. https://www.ibge.gov.br/
- Por que discutir o papel da Branquitude na luta antirracista?
Em sociedades estruturadas pelo racismo, como o Brasil, a luta antirracista é mais do que uma demanda moral: é um imperativo ético, político e civilizatório. Historicamente, os movimentos antirracistas têm se concentrado – de forma legítima e necessária – na denúncia das violências sofridas pelas populações negra e indígena, bem como na afirmação de suas identidades, histórias e direitos. No entanto, para desmantelar com eficácia o edifício racial que sustenta a desigualdade, torna-se igualmente vital lançar luz sobre o outro lado da equação: a branquitude. Este ensaio propõe uma introdução robusta ao campo dos Estudos Críticos da Branquitude, defendendo que compreender a branquitude como uma construção social, histórica e política — e não apenas como marcador fenotípico — é essencial para a efetividade da luta antirracista. Discutir a branquitude implica desvendar a normalização do ser branco como parâmetro universal e questionar os privilégios e estruturas de poder que dela derivam. Desfazendo Mitos: A análise não é sobre culpabilização individual, mas sobre Estruturas Sistêmicas A discussão sobre branquitude frequentemente provoca resistências, geralmente ancoradas em interpretações equivocadas de que se trata de um ataque moral individualizado às pessoas brancas. É crucial esclarecer: os Estudos Críticos da Branquitude não têm como objetivo atribuir culpas pessoais, mas analisar criticamente as engrenagens que tornam a branquitude uma posição de vantagem sistematicamente reproduzida. Como ressalta a pesquisadora Lia Vainer Schucman, o foco recai sobre a branquitude enquanto “identidade racial e como tal produtora e reprodutora de desigualdades e hierarquias raciais”, independentemente das intenções individuais. Assim, o campo desloca a lente do racismo como fenômeno de atos isolados para uma análise estrutural que revela como a identidade branca foi historicamente construída como norma e universalidade. Em outras palavras, a branquitude não é apenas uma condição de ser; é um sistema de significados que opera silenciosamente, consolidando posições de privilégio e naturalizando hierarquias raciais. Desempacotando a Branquitude Conceitos-Chave para a análise crítica para avançar na compreensão da Branquitude, alguns conceitos fundamentais precisam ser destacados: Normatividade e Invisibilidade A branquitude funciona como o “ponto zero” da identidade racial — aquilo que, por ser hegemônico, se apresenta como neutro e não marcado. Pessoas brancas, muitas vezes, não se percebem como racializadas, reforçando a ilusão de que apenas "os outros" possuem raça. Richard Dyer argumenta que a branquitude “assegura sua dominação por meio de sua invisibilidade [...] se apresenta como a condição humana normal”. Essa invisibilidade é um dos principais mecanismos de reprodução da normatividade branca: o que é invisível torna-se incontestável. Privilégios Raciais Peggy McIntosh popularizou a noção de "mochila invisível" de privilégios: um conjunto de vantagens e acessos que a maioria das pessoas brancas carrega inconscientemente. Pense, por exemplo, na simples ação de entrar em uma loja sem ser seguido por seguranças ou na facilidade de encontrar produtos estéticos (como maquiagem ou curativos) que correspondam ao seu tom de pele. São pequenas e grandes vantagens que decorrem não do mérito individual, mas da posição ocupada na hierarquia racial. Reconhecer esses privilégios não é motivo de culpa, mas sim um passo necessário para entender as desigualdades estruturais e para agir pela redistribuição efetiva de recursos e oportunidades. Pacto Narcísico da Branquitude Desenvolvido por Cida Bento, o conceito do "pacto narcísico" refere-se ao acordo tácito entre pessoas brancas para proteger seus privilégios e preservar uma autoimagem positiva, frequentemente através da negação ou minimização do racismo. Como define a autora, é “um pacto [...] de manutenção de privilégios para um grupo específico: os brancos”, operando frequentemente de forma não consciente para preservar o status quo racial. Esse pacto dificulta a responsabilização e perpetua a manutenção das desigualdades. Raízes Intelectuais: A Construção do Campo Crítico da Branquitude O campo dos Estudos Críticos da Branquitude emerge a partir de diversas tradições teóricas: W.E.B. Du Bois , já no início do século XX, apontava para os “salários públicos e psicológicos” da branquitude nos Estados Unidos — um tipo de recompensa simbólica que reforçava a adesão de trabalhadores brancos pobres a estruturas racistas, sentindo-se superiores aos negros. Ruth Frankenberg , em White Women, Race Matters, explora como mulheres brancas constroem suas identidades a partir de relações de poder racializadas, mostrando que a branquitude "é um local de vantagem estrutural, de privilégio racial". David Roediger , em The Wages of Whiteness, analisa como a classe trabalhadora branca norte-americana construiu sua identidade a partir da exclusão racial. Richard Dyer investiga o papel cultural e representacional da branquitude no Ocidente, desvendando sua aparente neutralidade. No Brasil, além de Cida Bento, temos contribuições inestimáveis de: Lia Vainer Schucman , que revela as hierarquias internas da branquitude paulistana, mostrando que ela "não é monolítica, mas um espectro de privilégios". Lourenço Cardoso , cuja obra analisa a branquitude no contexto jurídico e no racismo institucional brasileiro. Esses estudos são indispensáveis para compreender a branquitude em um país que construiu uma narrativa mítica de "democracia racial" para encobrir suas profundas desigualdades. Por que analisar a Branquitude é essencial para a Luta Antirracista? A crítica à branquitude não é um exercício teórico desconectado da prática política. Pelo contrário, ela se mostra imprescindível em vários níveis: Visibilizar o Polo Dominante Ao focar apenas nas vítimas do racismo, corre-se o risco de invisibilizar o sujeito privilegiado. A análise da branquitude torna evidente que o racismo é um sistema ativo de manutenção de privilégios, e não apenas de opressões. Superar a Armadilha da Intenção A luta antirracista precisa transcender a análise das intenções individuais (se alguém “quer ser racista” ou “não é racista”) e focar nas consequências e estruturas. A crítica à branquitude convoca a responsabilidade estrutural e coletiva. Construir Alianças Antirracistas Conscientes Pessoas brancas, para serem aliadas efetivas, precisam reconhecer seus lugares de fala e poder, ouvir vozes negras e indígenas, e agir de maneira consciente para não reproduzir protagonismos indevidos ou dinâmicas tutelares. Como nos lembra Grada Kilomba (embora focando na experiência negra, a reflexão serve à aliança), é preciso descolonizar o olhar e a escuta. Desnaturalizar a Eurocentricidade A crítica à branquitude permite desafiar padrões eurocêntricos de estética, conhecimento e comportamento, abrindo espaço para uma sociedade que valorize, de fato, a pluralidade de epistemologias e culturas. Conclusão: Um Chamado ao Compromisso Transformador Discutir branquitude crítica é, antes de tudo, um convite para repensar as fundações invisíveis que sustentam o racismo estrutural. Trata-se de um trabalho contínuo, desconfortável e profundamente necessário. Não se exige culpa, mas sim compromisso ético e responsabilidade histórica. Que este ensaio funcione como um ponto de partida para aprofundamentos teóricos, leituras críticas e, sobretudo, para a ação prática em prol de uma sociedade antirracista. O antirracismo efetivo exige que se questione não apenas as estruturas de exclusão, mas também os mecanismos de privilégio. Leituras, reflexões, críticas? O espaço dos comentários abaixo está aberto para um debate respeitoso e construtivo. 👇 Referências Sugeridas : BENTO, Cida. O Pacto da Branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022. SCHUCMAN, Lia Vainer. Entre o Encardido, o Branco e o Branquíssimo: Raça, Hierarquia e Poder na Construção da Branquitude Paulistana. São Paulo: Annablume, 2014.1 CARDOSO, Lourenço. O Branco Ante a Lei: Legislação e Racismo Institucional. Salvador: EDUFBA, 2018. ALMEIDA, Silvio. Racismo Estrutural. São Paulo: Pólen, 2019. Dyer, Richard. White. Londres: Routledge, 1997. Frankenberg, Ruth. White Women, Race Matters. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1993. KILOMBA, Grada. Memórias da Plantação: Episódios de Racismo Cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.
- Revolução dos Cravos e a luta pela Independência na África Lusófona: um olhar sobre as Racialidades, Lideranças, Descolonização e Legados Históricos
A Revolução dos Cravos, evento sísmico ocorrido em Portugal em 25 de abril de 1974, não apenas desmantelou o longevo regime autoritário do Estado Novo, mas também atuou como catalisador decisivo para o fim de um império colonial onde as dinâmicas raciais eram estruturantes. O golpe militar pacífico, orquestrado pelo Movimento das Forças Armadas (MFA), removeu do poder uma ditadura que, por décadas, negou a autodeterminação dos povos africanos, mantendo uma ordem social e política rigidamente hierarquizada pela raça. Como aponta Norrie MacQueen, “a lógica da permanência colonial tornou-se insustentável após o colapso do regime, uma vez que este era o principal fiador ideológico e militar da política imperial portuguesa” (MacQueen, 1997, p. 86). Essa política imperial, sustentada por ideologias como o lusotropicalismo – que, paradoxalmente, celebrava uma suposta miscigenação enquanto mascarava profundas desigualdades e discriminações raciais – via os territórios africanos como extensões ultramarinas de uma nação pluricontinental, negando a identidade e os direitos dos povos colonizados. As lutas de libertação que floresceram em Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe desde o início da década de 1960 eram, em sua essência, confrontos diretos contra essa estrutura de dominação racial e exploração. Os movimentos revolucionários não apenas visavam à emancipação política, mas também à reafirmação das identidades africanas e à construção de sociedades onde a raça não fosse um fator de opressão. Com a queda da ditadura, a nova liderança portuguesa reconheceu a irreversibilidade desses movimentos, iniciando negociações que culminaram nas rápidas transferências de soberania entre 1974 e 1975. Angola: Racialidades em conflito e a Guerra Civil Em Angola, a herança colonial de estratificação racial e étnica complexa exacerbou as tensões entre os movimentos de libertação. A independência, em 11 de novembro de 1975, foi seguida por uma guerra civil brutal, onde as clivagens políticas frequentemente se alinharam com diferentes bases de apoio étnico-raciais e regionais, complicadas pela intervenção de potências externas com seus próprios interesses. Agostinho Neto, líder do MPLA, representava um movimento com forte apoio em áreas urbanas e entre a população Kimbundu, além de contar com a adesão de muitos mestiços e alguns brancos anticolonialistas. Médico e poeta negro, Neto articulou a luta pela independência com a busca por libertação social, afirmando que “a libertação nacional é inseparável da libertação social” (Neto, 1979), o que implicitamente incluía a superação das desigualdades raciais impostas pelo colonialismo. Seu governo, no entanto, enfrentou o desafio de unificar um país fraturado, e as acusações de perseguição a dissidentes também tocaram em questões de identidade e pertencimento. Jonas Savimbi, da UNITA, construiu sua base de apoio predominantemente entre os Ovimbundu, o maior grupo etnolinguístico de Angola. A trajetória de Savimbi e da UNITA, especialmente durante a guerra civil contra o MPLA, esteve frequentemente entrelaçada com dinâmicas étnicas e regionais, que, em um contexto pós-colonial, muitas vezes se traduziram em tensões com conotações raciais, especialmente na disputa por poder e recursos. Tony Hodges observa que “Savimbi personificou o prolongamento da guerra e o colapso do diálogo político em Angola” (Hodges, 2004, p. 102), um conflito onde as identidades raciais e étnicas foram habilmente manipuladas e exploradas pelos diferentes lados e seus apoiadores externos. Holden Roberto, à frente da FNLA, concentrou seu apoio principalmente entre os Bakongo no norte, área que historicamente manteve laços mais estreitos com o Congo. A FNLA, embora tenha sido um dos primeiros movimentos a iniciar a luta armada, viu sua influência diminuir drasticamente após a independência, em parte devido à sua base de apoio mais restrita e às alianças geopolíticas da Guerra Fria. Moçambique: A luta contra o Racismo e a construção da Nação Socialista Em Moçambique, a FRELIMO emergiu como o principal e, para muitos, o único representante legítimo da luta pela independência contra um sistema colonial onde a exploração do trabalho africano e a segregação racial eram patentes. A FRELIMO, sob a liderança de Samora Machel, buscou ativamente construir uma identidade nacional moçambicana que transcendesse as divisões étnicas e raciais herdadas do colonialismo. Machel enfatizava que “a independência não é o fim, mas o início de uma nova luta — a luta pela transformação da sociedade” (Machel, 1977, p. 14), e essa transformação incluía explicitamente o combate ao racismo e à discriminação. Apesar dos esforços da FRELIMO para promover a igualdade racial e étnica, o país mergulhou em uma guerra civil contra a RENAMO. É crucial notar que a RENAMO foi significativamente apoiada e, em grande medida, criada por regimes minoritários brancos da Rodésia e da África do Sul, que viam o governo da FRELIMO como uma ameaça direta à sua própria estrutura de poder baseada na segregação racial do apartheid. Essa ligação ressalta como as racialidades continuaram a desempenhar um papel central nos conflitos pós-coloniais na região. Guiné-Bissau e Cabo Verde: A força da Cultura e a Unidade Dissolvida A luta pela independência na Guiné-Bissau e Cabo Verde, liderada pelo PAIGC, destacou-se pela profundidade da análise de seu líder maior, Amílcar Cabral, sobre a importância da cultura e da identidade na luta anticolonial. Cabral, ele próprio de origem cabo-verdiana e profundamente consciente das complexidades raciais e sociais dentro do império português, argumentava que “ninguém pode libertar-se se não se libertar culturalmente” (Cabral, 1975, p. 50). Para Cabral, a descolonização das mentes dos africanos, a superação da internalização das hierarquias raciais coloniais e a valorização das culturas africanas eram tão vitais quanto a luta armada. O PAIGC uniu pessoas de diferentes grupos étnicos da Guiné-Bissau e da população de Cabo Verde sob um projeto comum de libertação. No entanto, após o assassinato de Cabral e a independência dos dois países, a unidade do PAIGC fragmentou-se, culminando em um golpe de Estado na Guiné-Bissau em 1980 que depôs o Presidente Luís Cabral (cabo-verdiano) e acentuou as diferenças entre as duas nações, por vezes explorando ressentimentos e percepções baseadas em origens geográficas e, implicitamente, em diferentes posições na estratificação colonial. Aristides Pereira, que assumiu a presidência em Cabo Verde, liderou o país por um caminho relativamente mais estável. As dinâmicas raciais em Cabo Verde, com sua população majoritariamente crioula, diferiam das da Guiné-Bissau continental, e o processo pós-independência refletiu essas particularidades, embora a herança do colonialismo e suas implicações sociais e econômicas permanecessem presentes. São Tomé e Príncipe: a superação da Economia de Plantação e as Racialidades São Tomé e Príncipe, uma colônia cuja economia se baseava na exploração brutal do trabalho nas plantações de cacau e café ( roças ), com uma estrutura social profundamente marcada pela raça e classe, alcançou a independência de forma relativamente pacífica em 12 de julho de 1975, sob a liderança do MLSTP. Manuel Pinto da Costa, o primeiro presidente, enfrentou o desafio de transformar uma economia e uma sociedade moldadas pela exploração racializada colonial. A nacionalização das roças foi uma tentativa de desmantelar a antiga estrutura de poder e propriedade, que beneficiava desproporcionalmente os colonos brancos e uma elite mestiça ligada a eles, em detrimento da grande massa de trabalhadores rurais negros, muitos deles de origem angolana ou moçambicana. A historiadora Inês Nascimento Rodrigues destaca que “o caso são-tomense ilustra uma das transições mais pacíficas do império português para a independência africana” (Rodrigues, 2015, p. 212), mas essa paz não significou a ausência de desafios na superação das desigualdades e das dinâmicas raciais herdadas. Conclusão: Legados da Luta Anticolonial e os Desafios Contínuos A Revolução dos Cravos foi, sem dúvida, o momento que precipitou o fim formal do império português e permitiu que os povos africanos lusófonos conquistassem a soberania política pela qual lutaram. Contudo, a independência não apagou instantaneamente os legados de séculos de dominação colonial e racial. Como lembra Achille Mbembe, “a soberania pós-colonial foi muitas vezes consumida por conflitos herdados, pela dependência econômica e pela dificuldade de reinvenção do Estado” (Mbembe, 2000, p. 42). Muitos desses conflitos e dificuldades estiveram, e ainda estão, intrinsecamente ligados às dinâmicas raciais e étnicas moldadas e, por vezes, exacerbadas pelo poder colonial. As independências na África Lusófona são, portanto, marcos cruciais na luta contra o colonialismo e o racismo estrutural, mas também representam o início de complexos processos de construção nacional onde as racialidades continuam a ser um fator relevante nas esferas social, política e econômica. O legado dos líderes da independência reside na conquista da autodeterminação e nos esforços para construir sociedades mais justas e igualitárias, mesmo diante dos enormes desafios impostos pela história colonial e pelas realidades geopolíticas do pós-Guerra Fria. Referências Bibliográficas Cabral, A. (1975). Unity and Struggle: Speeches and Writings of Amílcar Cabral . Monthly Review Press. Hodges, T. (2004). Angola: From Afro-Stalinism to Petro-Diamond Capitalism . Indiana University Press. MacQueen, N. (1997). The Decolonization of Portuguese Africa: Metropolitan Revolution and the Dissolution of 1 Empire . Longman. Machel, S. (1977). A Luta Continua: Speeches by Samora Machel . Zed Press. Mbembe, A. (2000). On the Postcolony . University of California Press. Neto, A. (1979). Sagrada Esperança . Instituto Nacional do Livro e do Disco de Angola. Rodrigues, I. N. (2015). Descolonização e Memórias: Os Finais do Império Português . Almedina.
- A escrevivência de Conceição Evaristo: memória, denúncia e poética negra na literatura brasileira contemporânea
Sobre a Autora: Conceição Evaristo (1946) é uma das vozes mais importantes da literatura brasileira contemporânea. Mineira, de origem humilde, sua trajetória acadêmica e literária é marcada pela força da mulher negra que transforma vivências em palavras potentes. Mestra em Literatura Brasileira e Doutora em Literatura Comparada, sua obra, incluindo romances, contos e poemas, é celebrada por sua qualidade estética e seu profundo compromisso social. A literatura produzida por autores e autoras indígenas no Brasil contemporâneo representa muito mais do que um fenômeno editorial; é a consolidação de um vibrante e necessário campo de batalha simbólica e política. Em um país fundado sobre a invasão e a contínua expropriação dos povos originários – processos marcados por um silenciamento sistemático e pela imposição de narrativas que os relegavam a um passado romantizado ou a uma alteridade exótica e inferior –, a emergência da escrita indígena atua como um poderoso contradiscurso. Datas como o 19 de abril (Dia dos Povos Indígenas) servem como momentos de visibilidade para lutas incessantes pela demarcação de terras, pela preservação de línguas e culturas e pelo direito fundamental à autodeterminação. Nesse cenário, a literatura, antes um instrumento predominantemente não-indígena sobre os indígenas, torna-se uma ferramenta dos indígenas para narrar a si mesmos, reivindicar memórias e projetar futuros. Sob um olhar sociológico, essa produção transcende a categoria de "objeto estético" para se afirmar como prática social transformadora, intrinsecamente ligada à desconstrução da racialização – esse processo social, como discute Raewyn Connell (2007), que cria hierarquias baseadas em fenótipos e ascendência, legitimando desigualdades. A literatura indígena enfrenta diretamente essa construção, oferecendo um antídoto vital contra estereótipos desumanizantes e promovendo um entendimento mais complexo e digno da diversidade humana no Brasil. Ponciá Vicêncio: A herança e a busca A publicação de Ponciá Vicêncio (2003) inaugura esse projeto literário com força simbólica. A narrativa acompanha a trajetória da personagem-título em sua migração do campo para a cidade, metáfora recorrente da busca por emancipação e identidade. Carregando marcas da escravidão em sua subjetividade e corporalidade, Ponciá é a representação de uma herança histórica não resolvida no Brasil. O romance, de estrutura linear com flashes de memória, propõe uma escrita não apenas de denúncia, mas de reconstrução de uma subjetividade negra desintegrada pelo racismo e pela violência simbólica. A linguagem poética e a carga simbólica conferem à obra um lirismo doloroso, que tematiza o apagamento histórico ao mesmo tempo em que o denuncia. Becos da Memória: O testemunho coletivo A autora prossegue esse caminho em Becos da Memória (2006), obra inicialmente escrita nos anos 1980, mas publicada apenas após o sucesso de seu romance de estreia. Aqui, a narrativa se expande para o coletivo: trata-se do testemunho múltiplo de moradores de uma favela em processo de desintegração, ameaçada pelo avanço urbano. A memória individual e coletiva é evocada através da oralidade e da polifonia narrativa. A personagem-narradora, uma mulher negra, funciona como mediadora entre o passado e o presente, entre a fala dos esquecidos e o registro literário. A obra tensiona as fronteiras entre ficção e autobiografia, literatura e testemunho, e apresenta uma estética da fragmentação que expressa a descontinuidade das vidas negras na história oficial do Brasil. A favela não é apenas espaço geográfico, mas também território simbólico de memória, exclusão e resistência. Olhos d’Água: A poética da Escrevivência Radical O ápice desse percurso se dá em Olhos d’Água (2014), coletânea de contos que radicaliza a estética da escrevivência. Com narrativas curtas, densas e altamente sugestivas, Evaristo constrói pequenos retratos da vida de mulheres negras, crianças, trabalhadores e pessoas em situação de rua, que são os alvos constantes da violência racial, de gênero e de classe. A economia narrativa não compromete a profundidade psicológica das personagens, e a escolha da primeira pessoa em muitos contos amplia a sensação de intimidade e identificação. O conto que dá título à obra — Olhos d’Água — é paradigmático: nele, a fome é retratada como presença corpórea, corrosiva, mas o olhar da narradora remete a uma ancestralidade de sabedoria e dor. A ancestralidade, aliás, é uma constante nas narrativas de Evaristo: ela recorre aos saberes das mães, avós e ialorixás como estratégias de resistência frente ao mundo excludente. Estética e Política na Obra de Evaristo Do ponto de vista estético, as três obras dialogam com as tradições da oralidade africana e afro-brasileira, incorporando elementos como o ritmo, a repetição e a circularidade. São também obras que desafiam o cânone literário por integrarem a linguagem poética à crueza dos temas abordados — fome, morte, abandono, racismo institucional, feminicídio, entre outros. A autora realiza, assim, uma reescrita da história brasileira pela via da ficção, inscrevendo a experiência negra como centro da narrativa nacional, e não como nota de rodapé. Reconhecimento e Impacto A crítica literária tem reconhecido o valor singular da obra de Evaristo, tanto no Brasil quanto no exterior. Seu trabalho é frequentemente incluído em discussões sobre decolonialidade, interseccionalidade e literatura periférica. Além disso, seu protagonismo enquanto intelectual negra tem contribuído para a visibilidade de outras autoras e autores negros, promovendo uma reconfiguração do mercado editorial e da crítica literária brasileira. Conclusão: Um Ato Político, Poético e Necessário Conceição Evaristo não escreve apenas para emocionar — embora o faça com maestria —, mas sobretudo para inscrever corpos, memórias e experiências que foram historicamente apagadas. Através de Ponciá Vicêncio, Becos da Memória e Olhos d’Água, ela edifica uma obra comprometida com a justiça, a beleza e a complexidade das vidas negras. Em tempos de retrocessos democráticos e recrudescimento do racismo estrutural, sua literatura permanece como ato político, poético e profundamente necessário, apontando para projetos de "bem viver" que ressoam com urgência diante das crises globais e inspiram a construção de um futuro mais justo, equitativo e verdadeiramente intercultural. E você, qual a sua relação com a obra de Conceição Evaristo? Compartilhe suas impressões e pensamentos nos comentários abaixo! 👇 Referências Bibliográficas: EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo1 Horizonte: Mazza Edições, 2003. 1. EVARISTO, Conceição. Becos da Memória. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2006. EVARISTO, Conceição. Olhos d’Água. Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2014. NASCIMENTO, Elisa Larkin. O sortilégio da cor: identidade, raça e gênero no Brasil. São Paulo: Summus, 2003. RIBEIRO, Djamila. Lugar de fala. São Paulo: Letramento, 2017. DUARTE, Eduardo de Assis. Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Belo Horizonte: UFMG, 2011. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. GOMES, Nilma Lino. Movimento negro educador. Petrópolis: Vozes, 2017.
- As novelas midiáticas, o protagonismo negro e indígena, e as racialidades: um ensaio crítico aprofundado sobre representações e poder simbólico
Introdução As novelas midiáticas brasileiras erguem-se no cenário cultural como poderosos arquitetos de subjetividades, moldando o imaginário social e costurando a complexa tapeçaria da identidade nacional. Exibidas em horário nobre, essas narrativas audiovisuais penetram diariamente nos lares de milhões, transcendendo o mero entretenimento para atuar como veículos de educação informal, normalização de comportamentos e, crucialmente, como construtoras de símbolos e narrativas que definem quem detém valor e quem é relegado às margens na sociedade brasileira. Neste palco simbólico de imensa influência, a representação de personagens negros, negras e indígenas — a frequência de sua presença ou ausência, os contornos de seus papéis, os estereótipos persistentes e os raros, porém significativos, momentos de protagonismo — funciona como um espelho nítido, ainda que por vezes distorcido, das profundas tensões raciais que estruturam o Brasil. Este ensaio propõe uma análise crítica aprofundada dessa dinâmica, explorando a intrincada relação entre as telenovelas, o protagonismo negro e indígena e as racialidades, sob a luz da teoria crítica da comunicação, dos estudos decoloniais e das epistemologias negras e indígenas. 1. A Telenovela como Dispositivo Ideológico e Hegemônico A telenovela brasileira é mais que um produto cultural; é um fenômeno comunicacional de alcance singular. Suas raízes fincadas nos folhetins radiofônicos e literários do século XX floresceram em um dos principais produtos de exportação da indústria cultural nacional. Contudo, sua relevância transcende o valor econômico. A telenovela desempenha um papel central na fabricação de consensos sociais, na disseminação de valores e na solidificação de hierarquias. Como nos alerta Stuart Hall , a mídia opera como um aparelho ideológico, veiculando discursos hegemônicos sob um véu de aparente neutralidade. Ele argumenta que “a representação é uma parte essencial do processo pelo qual o sentido é produzido e intercambiado entre membros de uma cultura” (Hall, 2016). No universo das novelas, esses discursos têm, historicamente, ecoado e reforçado estruturas de poder racializadas, perpetuando ciclos de exclusão disfarçados de entretenimento popular. 2. A Norma da Invisibilidade e dos Estereótipos Redutores Por longas décadas, a paisagem ficcional das telenovelas relegou os corpos negros e indígenas a um espaço de invisibilidade ou a representações profundamente estereotipadas, funcionando como ferramentas de desumanização e controle simbólico. Quando presentes, personagens negros eram confinados a papéis secundários, subalternos, ou a arquétipos redutores: a empregada doméstica leal e sem voz própria, o motorista serviçal, o criminoso inerentemente perigoso, o malandro estereotipado, o escravizado conformado ou o alívio cômico desprovido de complexidade. Intelectuais como Clóvis Moura e Lélia Gonzalez foram vozes pioneiras na denúncia do uso sistemático desses estereótipos. Lélia Gonzalez (2020) apontava como a sociedade racista nos designa um lugar específico: “O lugar em que nos situam é o lugar do Outro (...) É nesse lugar que nos falam, é nesse lugar que nos calam.” A televisão, nesse aspecto, atuou como um reflexo amplificado de uma sociedade estruturalmente racista, como analisou Clóvis Moura (2019), que desvendou as engrenagens do racismo para além do preconceito individual, mostrando-o como "uma estrutura de dominação que permeia todas as instituições" . Essa estrutura validou e naturalizou o lugar social marginalizado destinado às populações negra e indígena. 3. O Protagonismo Negro e Indígena: Avanços Tímidos e Desafios Persistentes A ascensão de protagonistas negros e, de forma ainda mais rara, indígenas, nas tramas principais das novelas brasileiras é um desenvolvimento relativamente recente e marcado por sua excepcionalidade. Taís Araújo fez história como a primeira atriz negra a protagonizar uma novela no horário nobre da TV Globo com "Da Cor do Pecado" (2004). Contudo, mesmo esse marco foi recebido com reações atravessadas pelo racismo, como a própria atriz relatou, expondo a resistência de parte do público e da crítica a essa mudança. Desde então, observamos avanços, ainda que tímidos. A presença negra em papéis centrais ganhou maior visibilidade e complexidade com artistas de imenso talento e relevância cultural. Lázaro Ramos , uma figura multifacetada como ator, diretor e escritor de vasta influência, consolidou-se como referência, estrelando produções como "Ó Paí, Ó", "Mister Brau" (ao lado de Taís Araújo) e "Amor de Mãe", além de ser autor de livros infantojuvenis focados na autoestima negra. Camila Pitanga brilhou em protagonistas de novelas como "Lado a Lado" e "Velho Chico", destacando-se também por seu engajamento político e atuação na produção e direção audiovisual com foco em diversidade. Atores como Fabrício Boliveira (com atuações marcantes em "Segundo Sol", "Todas as Flores", e destaque no cinema em "Simonal" e "Marighella"), Ícaro Silva (versátil em "Verdades Secretas", "Cara e Coragem", teatro e cinema, com forte presença em debates públicos), Jéssica Ellen (notória desde "Malhação" até "Amor de Mãe", também cantora e voz ativa no debate sobre maternidade negra e antirracismo), Lucy Ramos (com trajetória sólida desde "Sinhá Moça" e conhecida pela luta contra o racismo nos bastidores), Bukassa Kabengele (presença marcante em papéis dramáticos em novelas e séries), Dan Ferreira (emergindo em produções contemporâneas para TV, cinema e streaming como "Segundo Sol" e "Amor de Mãe") e Jonathan Azevedo (cujo "Sabiá" em "A Força do Querer" marcou época, atuando também na música, teatro e em projetos sociais voltados à juventude negra) têm conquistado papéis de maior densidade e impacto narrativo. No entanto, é crucial sublinhar que o protagonismo negro ainda não se tornou a regra, permanecendo como uma exceção notável, mas não normalizada. Além disso, a questão do "lugar de fala" permanece central, visto que muitas dessas narrativas ainda são concebidas e dirigidas por equipes majoritariamente brancas, levantando questionamentos sobre a autenticidade, a profundidade e o direito à auto-representação. Paralelamente, a representatividade indígena nas telenovelas continua sendo ainda mais escassa e problemática. Frequentemente, quando personagens indígenas aparecem, são relegados a estereótipos que remetem a um passado idealizado ou a figuras exóticas, raramente ocupando espaços de protagonismo ou tendo suas complexas realidades contemporâneas exploradas. Atrizes como Suyane Moreira , que teve papéis de destaque em produções como "Amazônia, de Galvez a Chico Mendes", representam pontos de visibilidade importantes, mas ainda isolados, evidenciando uma camada adicional de invisibilidade e exclusão no imaginário midiático hegemônico. A experiência da racialização, como descrita por Frantz Fanon (2008) em Pele Negra, Máscaras Brancas , revela o peso desse olhar externo: “Quando me amam, dizem que me amam apesar da minha cor. Quando me detestam, acrescentam que não é por causa da minha cor... Em qualquer situação, sou prisioneiro deste círculo infernal.” Essa prisão simbólica se reflete na dificuldade de acesso a papéis complexos e protagonistas para atores e atrizes racializados. 4. A Racialidade como Categoria Analítica Estrutural Superando a mera contagem quantitativa de atores negros ou indígenas em cena, é imperativo analisar a racialidade como um marcador que estrutura fundamentalmente as relações sociais e, por extensão, as midiáticas. Inspirando-nos em pensadores como Fanon, Mbembe e Gonzalez, entendemos a racialidade não como um traço individual, mas como um eixo constitutivo do poder simbólico. A questão não é apenas incluir mais personagens negros e indígenas, mas transformar radicalmente as estruturas narrativas, visuais e ideológicas que historicamente definiram a telenovela. Achille Mbembe (2018) nos lembra que a construção da raça tem consequências materiais e simbólicas profundas, afirmando que “A ‘raça’ (...) continua a ser um dos significantes crus da exclusão e da violência em nosso tempo.” A racialidade nos obriga a reconhecer que identidades não são neutras; são campos de disputa atravessados por histórias de poder, política e conhecimento. 5. Rumo a uma Representatividade Crítica e à Redistribuição de Poder A simples inserção de personagens negros e indígenas nas novelas, embora positiva, não é suficiente para promover uma transformação social profunda. É necessário transcender a representatividade meramente simbólica e avançar em direção a uma representatividade crítica . Esta implica em questionar e reconfigurar o próprio sistema midiático. Isso passa pela formação, contratação e valorização de roteiristas, diretores, produtores e técnicos negros e indígenas; pela democratização radical dos espaços de tomada de decisão nas emissoras e produtoras; e pela promoção ativa de uma estética decolonial que celebre e incorpore referências culturais afro-brasileiras, indígenas e periféricas, rompendo com a hegemonia eurocêntrica. A luta por representatividade é indissociável da luta por redistribuição efetiva de poder e por reparação histórica. Essa necessidade de transformação estrutural ecoa o pensamento de Djamila Ribeiro (2019), que ao discutir o conceito de lugar de fala, ressalta sua importância para a própria existência: "Falar não se trata apenas do ato de emitir palavras, mas de poder existir." Artistas como os mencionados anteriormente, muitos dos quais utilizam suas plataformas para o ativismo, personificam essa busca por uma presença que não seja apenas decorativa, mas transformadora. Nomes emergentes como MC Carol (explorando a atuação com forte impacto cultural em 'Encantado’s'), a rapper e atriz Gabz (despontando em séries como 'A Vida Pela Frente' com forte presença no discurso decolonial), o ator e roteirista Pedro Guilherme (revelação em projetos de streaming e canais pagos), e talentos como Val Perré , Naruna Costa , Dandara Mariana e Aline Borges (com papéis expressivos em séries e novelas recentes) também contribuem com novas linguagens e perspectivas, tensionando as estruturas a partir de suas existências e atuações. 6. A Resistência e a Potência das Mídias Negras e Alternativas Em contraposição à hegemonia simbólica exercida pela grande mídia, coletivos, plataformas e iniciativas de mídia negra e indígena (como Alma Preta, Mídia Ninja, Perifa Connection, Cine África, Rádio Yandê, entre muitos outros) têm desempenhado um papel vital na construção de contra-narrativas e na afirmação de novas subjetividades. Projetos como esses funcionam como importantes tensionadores do monopólio narrativo. Eles oferecem espaços cruciais para a expressão da multiplicidade de vivências negras e indígenas, onde a racialidade é reivindicada com agência, orgulho e complexidade. Essas mídias alternativas operam como contra-espaços discursivos, demonstrando a viabilidade de produzir dramaturgia, jornalismo e audiovisual com protagonismo negro e indígena fora das lógicas predominantemente comerciais e muitas vezes racistas da indústria tradicional, exercendo uma forma de contra-hegemonia. Conclusão: Descolonizar a Telenovela para Democratizar o Imaginário Coletivo O combate ao racismo estrutural e institucional na mídia brasileira exige, de forma inegociável, um profundo processo de descolonização estética e narrativa das telenovelas. Isso implica ir além da representação superficial de personagens, repensando as próprias estruturas dramáticas, os roteiros, os olhares da direção e da câmera, e, fundamentalmente, os lugares de fala e decisão. Significa, também, a implementação de políticas públicas robustas de incentivo à produção audiovisual negra e indígena, a descentralização dos meios de comunicação e a democratização efetiva do acesso à criação, produção e difusão cultural. O protagonismo negro e indígena nas novelas não pode ser tratado como uma concessão esporádica ou uma resposta a pressões momentâneas; deve ser compreendido e garantido como um direito cultural, político e humano fundamental. Somente através desse caminho árduo, mas necessário, a televisão brasileira poderá, enfim, aspirar a ser um espelho crítico e diverso de sua sociedade, e não um mero reprodutor de suas desigualdades mais profundas, contribuindo para a construção de um imaginário verdadeiramente democrático e plural. Referências Bibliográficas FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas . Tradução de Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008. GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: Ensaios, intervenções e diálogos . Organização de Flávia Rios e Márcia Lima. Rio de Janeiro: Zahar, 1 2020. HALL, Stuart. Cultura e Representação . Organização de Daniel Miranda. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio: Apicuri, 2016. MBEMBE, Achille. Crítica da Razão Negra . Tradução de Marta Lança. São Paulo: n-1 edições, 2018. MOURA, Clóvis. Sociologia do Negro Brasileiro . São Paulo: Perspectiva, 2019. (Reedição). RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? . Belo Horizonte: Letramento: Justificando, 2019. (Coleção Feminismos Plurais).
- Quilombismo: um projeto radical para a refundação do Brasil
A identidade brasileira, frequentemente celebrada por sua miscigenação e sincretismo cultural, carrega consigo as marcas profundas de um processo histórico violento e excludente. A narrativa hegemônica de um país tropical e festivo muitas vezes obscurece as estruturas persistentes de racismo e a negação sistemática da centralidade da contribuição africana e afro-brasileira na formação nacional. Nesse cenário de disputas pela memória e pelo futuro, emerge a figura incontornável de Abdias do Nascimento (1914-2011), um intelectual, artista e militante cuja trajetória se confunde com a própria história da luta antirracista no Brasil. Para além da denúncia, Nascimento dedicou sua vida a formular e defender um projeto civilizatório alternativo, uma utopia concreta ancorada na experiência histórica negra: o Quilombismo. Analisar o Quilombismo não é apenas resgatar um conceito, mas compreender uma proposta radical de refundação do Estado e da sociedade brasileira sob a égide da justiça racial e da plena cidadania para a população negra. Abdias do Nascimento foi uma personalidade polimorfa: ator, dramaturgo, artista plástico, professor universitário, deputado federal, senador e um dos mais longevos e influentes ativistas do movimento negro brasileiro. Sua atuação transcendeu as fronteiras disciplinares e geográficas. Fundador de instituições seminais como o Teatro Experimental do Negro (TEN) em 1944 – um marco na dramaturgia e na afirmação da identidade negra nos palcos – e idealizador do Museu de Arte Negra (MAN), Nascimento combateu frontalmente o mito da democracia racial, que ele considerava uma sofisticada ferramenta de opressão. Em sua obra seminal, "O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado", ele desnuda as engrenagens do racismo à brasileira, argumentando que a miscigenação compulsória e a assimilação cultural forçada constituíam estratégias de extermínio simbólico e físico da população negra. Como ele mesmo afirmou, o Brasil praticava um "racismo de marca" que visava o "branqueamento" progressivo da população, uma forma insidiosa de genocídio cultural e demográfico. É neste contexto de crítica radical à ordem vigente que o Quilombismo se cristaliza como proposta política e filosófica. O termo, evidentemente, evoca os quilombos coloniais – espaços de refúgio, resistência e organização autônoma criados por africanos e seus descendentes escravizados que escapavam ao cativeiro. Palmares, sob a liderança de Zumbi, tornou-se o símbolo máximo dessa insurgência. No entanto, Abdias do Nascimento transcende a referência histórica para transformá-la em um paradigma para o presente e o futuro. O Quilombismo, em sua formulação, não é um retorno nostálgico ao passado, mas, como ele define, um movimento político dos negros "visando à construção de um novo Estado, o Estado Nacional Quilombista". Trata-se de um projeto de sociedade fundamentado nos valores da cooperação, da solidariedade, da justiça social e do respeito à diversidade cultural, princípios que, segundo Nascimento, eram inerentes à organização social dos quilombos históricos. Na prática, o Quilombismo propõe uma reestruturação profunda do Estado brasileiro, que deveria abandonar sua matriz eurocêntrica e reconhecer-se como fundamentalmente afro-brasileiro. Isso implicaria, primeiramente, uma valorização radical da cultura negra em todas as suas manifestações – artes visuais, música, dança, culinária, filosofia e, crucialmente, as religiões de matriz africana como o Candomblé e a Umbanda, constantemente demonizadas e perseguidas. Nascimento via na cultura não apenas uma forma de resistência, mas a própria essência da identidade e da força do povo negro. O TEN, por exemplo, não era apenas um espaço para atores negros, mas um laboratório para forjar uma estética e uma dramaturgia autenticamente afro-brasileiras, rompendo com os padrões europeus. Ele defendia que a cultura negra era patrimônio nacional e deveria ser fomentada e protegida pelo Estado. Politicamente, o Quilombismo clama pelo protagonismo negro nos espaços de poder e decisão. Não se trata de mera representatividade simbólica, mas da ocupação efetiva de posições estratégicas na política institucional, na academia, na economia e nas instituições culturais. Abdias do Nascimento, através de sua própria atuação parlamentar, buscou traduzir essa demanda em leis e políticas públicas que combatessem a desigualdade racial e promovessem a equidade. Ele entendia que o racismo estrutural só poderia ser desmontado com a participação ativa e dirigente da população negra na redefinição dos rumos do país. Nas suas palavras, era preciso "aquilombar o Brasil", ou seja, reorganizar a nação a partir dos princípios de liberdade, igualdade e justiça social vivenciados nos quilombos. Outra dimensão fundamental do Quilombismo é sua perspectiva pan-africanista e internacionalista. Abdias do Nascimento estabeleceu diálogos e conexões com intelectuais e movimentos negros das Américas, do Caribe e da África, compreendendo a luta antirracista no Brasil como parte de um movimento global de libertação dos povos africanos e da diáspora. Ele via no Quilombismo um modelo que poderia inspirar outras nações com populações afrodescendentes a construir sociedades mais justas e igualitárias, baseadas em suas próprias matrizes culturais e históricas. A solidariedade transnacional era, para ele, um componente estratégico na luta contra o racismo e o imperialismo. Como ele escreveu em "O Quilombismo: Documentos de uma Militância Pan-Africanista", a proposta visava um "Estado Nacional multiétnico" onde "as culturas africanas [...] se reencontram e se interpenetram fertilizando um projeto de sociedade verdadeiramente igualitário, livre e soberano". Hoje, o legado de Abdias do Nascimento e a potência do Quilombismo permanecem intensamente relevantes. As comunidades remanescentes de quilombos continuam sua luta ancestral pela demarcação de seus territórios e pelo reconhecimento de seus direitos, enfrentando a violência do agronegócio, da mineração e do próprio Estado. Mas o Quilombismo, como projeto mais amplo, inspira movimentos sociais, coletivos culturais, intelectuais e artistas que buscam construir alternativas ao modelo de desenvolvimento excludente e à persistência do racismo estrutural. Revisitar o Quilombismo é fundamental para confrontar as narrativas que ainda tentam invisibilizar a centralidade da questão racial no Brasil e para alimentar a imaginação política na busca por um país onde a diversidade seja, de fato, celebrada como potência e não como problema. Em suma, o Quilombismo de Abdias do Nascimento transcende a mera comemoração histórica para se afirmar como uma filosofia política radical e um projeto de engenharia social. Ele propõe uma ruptura epistemológica com o pensamento colonial e eurocêntrico, oferecendo um caminho para que o Brasil possa, finalmente, reconciliar-se com sua história e construir um futuro onde a matriz africana seja reconhecida como pilar fundamental da nação. É um chamado à ação, à organização e à transformação profunda, ecoando o espírito de resistência e autonomia dos antigos quilombos para forjar um Brasil verdadeiramente justo, plural e democrático para todos os seus cidadãos. Bibliografia Sugerida: NASCIMENTO, Abdias do. O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. NASCIMENTO, Abdias do. O Quilombismo: Documentos de uma Militância Pan-Africanista . 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora Fundação Palmares; Brasília: OR Editor, 2002. (Originalmente publicado pela Editora Vozes em 1980). NASCIMENTO, Abdias do; NASCIMENTO, Elisa Larkin. O Sortilégio da Cor: Identidade, Raça e Gênero no Brasil . São Paulo: Summus Editorial, 2003. NASCIMENTO, Elisa Larkin (Org.). Abdias Nascimento: A Luta na Política (1978-2008) . Rio de Janeiro: IPEAFRO, 2009. NASCIMENTO, Elisa Larkin. O Poder do Símbolo: O Legado Africano nos Símbolos Adinkra . In: MUNANGA, Kabengele (Org.). História do Negro no Brasil . Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2004. v. 2. GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano . Rio de Janeiro: Zahar, 2020. RATTS, Alex. Eu sou Atlântica: Sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento . São Paulo: Imprensa Oficial, 2007.










