Nem flores, nem esquecimento: a intelectualidade das mulheres amefricanas como pilar da soberania
- Helbson de Avila
- há 3 dias
- 5 min de leitura

1. O 8 de março entre memória e mercantilização
O Dia Internacional da Mulher consolidou-se historicamente como uma data de luta, associada às mobilizações operárias femininas do início do século XX e ao enfrentamento estrutural do patriarcado capitalista. Contudo, testemunhamos hoje um processo violento de domesticação simbólica. A branquitude e o mercado capturaram a data, convertendo-a num evento de consumo, marketing corporativo e numa celebração despolitizada da "feminilidade".
Para nós, que operamos a partir das epistemologias do Sul Global, essa transformação do 8 de março em uma data de flores, promoções vazias e homenagens superficiais representa a neutralização política de uma memória forjada na greve e no sangue.
Como observa a filósofa feminista negra Angela Davis:
“Quando o feminismo se desvincula da crítica ao racismo, ao capitalismo e ao imperialismo, ele deixa de ser um movimento de libertação e torna-se apenas uma ideologia de inclusão limitada.” (DAVIS, 2016).
Esse esvaziamento torna-se gritante quando o feminismo liberal branco assume a narrativa institucional. A experiência histórica das mulheres negras, indígenas e periféricas é apagada. No contexto da nossa Améfrica Ladina, essa invisibilização é o sintoma crónico de um legado colonial que ainda dita quem tem o direito de ser lembrada.
2. A crítica amefricana: Lélia Gonzalez e a insurgência epistemológica
Para desmantelar essa dinâmica, a nossa principal tecnologia de defesa intelectual é a obra de Lélia Gonzalez. A sua formulação do conceito de Amefricanidade não é apenas teoria; é o nosso chão de fábrica.
Segundo Gonzalez:
“A categoria amefricanidade nos permite ultrapassar os limites impostos pela visão eurocêntrica da história e compreender a profunda articulação cultural e política entre povos negros e indígenas das Américas.” (GONZALEZ, 1988).
A lente leliana denuncia que o feminismo dominante muitas vezes opera como capataz das hierarquias coloniais. O 8 de março é, portanto, um campo de guerra simbólica entre um feminismo liberal que implora por inclusão, e um feminismo amefricano que exige a refundação do mundo.
Homenagens em posts de Instagram são insuficientes. O reconhecimento simbólico sem redistribuição material e sem investimento intelectual na produção dessas mulheres é a perpetuação do que Boaventura de Sousa Santos denomina epistemicídio:
“O epistemicídio consiste na destruição sistemática dos conhecimentos produzidos por grupos sociais subordinados.” (SANTOS, 2019).
Celebrar as nossas vozes em março, mas negar-lhes financiamento e circulação editorial no resto do ano, é a face mais cínica da necropolítica cognitiva.
3. Escrevivência e soberania epistêmica
Contra esse apagamento, ergue-se a Escrevivência, conceito forjado por Conceição Evaristo que funde corpo, memória coletiva e literatura:
“A nossa escrevivência não é para adormecer os da casa-grande, mas para acordá-los de seus sonos injustos.” (EVARISTO, 2017).
A escrevivência não é apenas poesia; é ciência da reexistência. É uma infraestrutura epistemológica que desafia a academia eurocêntrica. Patricia Hill Collins descreve isso como a formação de uma tradição intelectual crítica:
“As mulheres negras produziram uma tradição intelectual crítica que questiona simultaneamente racismo, sexismo e exploração econômica.” (COLLINS, 2019).
Essa intelectualidade orgânica brota nos terreiros, nos sambas, nos coletivos e, fundamentalmente, nos projetos editoriais autônomos que ousam existir.
4. Intelectualidade insurgente e a tradição de mulheres negras e indígenas
A nossa história é tecida por intelectuais que produziram rigor teórico sob o fogo cruzado da exclusão: bell hooks, Audre Lorde, Ailton Krenak, Grada Kilomba, Sueli Carneiro.
A produção destas mulheres não é um "nicho"; é a lente central para compreender a modernidade. Audre Lorde sintetiza o nosso princípio tático:
“Não existe hierarquia de opressões.” (LORDE, 1984).
Esta é a base da interseccionalidade: não podemos combater o machismo de março ignorando o racismo que opera o ano inteiro.
5. Da homenagem simbólica ao financiamento da ciência negra
Se queremos devolver a radicalidade ao 8 de março, precisamos de substituir as flores por soberania epistêmica. Isso implica ação material: financiar a ciência negra, apoiar redes independentes e garantir que a literatura amefricana chegue às prateleiras.
Neste cenário, assumimos a nossa responsabilidade. A Livraria Pandora e a Revista Amefricana funcionam como o nosso Quilombo Científico, laboratórios práticos de justiça cognitiva.
6. A Coleção Erê e a pedagogia da imaginação negra
A guerra epistemológica começa na infância. O racismo estrutural coloniza o imaginário antes mesmo de colonizar os corpos.
É por isso que a nossa Coleção Erê é estratégica. Ao forjar narrativas que rompem com a lógica colonial — entregando às crianças negras e indígenas o protagonismo da sua própria cosmogonia, livre de estereótipos —, estamos a armar a próxima geração. Livros como A Serpente de Olumo ou Como Surgiu o Primeiro Griot não são apenas literatura infantil; são os primeiros escudos da nossa juventude.
7. Revista Amefricana: semear soberania epistêmica
Se a Coleção Erê protege as nossas crianças, a Revista Amefricana blinda a nossa produção académica.
Temos uma aliança estrutural com a Revista. Financiar este espaço não é "fazer uma doação", é investir na nossa infraestrutura de defesa. É garantir que a nossa "Lente Estrutural" e "Lente Narrativa" continuem a operar sem pedir autorização à academia tradicional.
Apoiar a Revista Amefricana é, literalmente, semear a soberania.
8. Subverter o 8 de março
Formulamos, portanto, a nossa proposição para 2026: O maior tributo às mulheres negras e indígenas não é a homenagem simbólica, é o financiamento da sua produção intelectual.
Subverter esta data exige direcionar os seus recursos para a manutenção da nossa ciência e literatura. Como nos ensina bell hooks:
“O feminismo é para todo mundo, mas só se for um projeto de transformação radical da sociedade.” (hooks, 2018).
O feminismo que não financia a intelectualidade amefricana é apenas branquitude de mãos dadas.
9. Nem flores, nem esquecimento
O 8 de março não é dia de gratidão estética. É dia de compromisso tático.
Compromisso com aquelas que, através da sua escrevivência, forjaram o chão que pisamos. O verdadeiro tributo é garantir que as suas vozes não sejam apagadas, financiando o ecossistema que as mantém vivas.
Nem flores, nem esquecimento. Apenas Soberania Epistêmica.
🛠️ O Seu Próximo Passo: Torne-se um Guardião
Neste 8 de março, recuse as homenagens vazias e faça um investimento intelectual real. Convidamos você a integrar a campanha Semear a Soberania.
Ao tornar-se um apoiador da Revista Amefricana, você financia diretamente a ciência negra e, como reconhecimento por ajudar a manter o nosso Quilombo Intelectual de pé, ganha poder de fogo na Livraria Pandora:
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Assuma o seu posto. Arme a sua biblioteca. Semeie a nossa soberania.
Referências bibliográficas
COLLINS, Patricia Hill. Pensamento feminista negro. São Paulo: Boitempo, 2019.
DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.
EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas, 2017.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
hooks, bell. O feminismo é para todo mundo. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.
LORDE, Audre. Sister Outsider. Berkeley: Crossing Press, 1984.
SANTOS, Boaventura de Sousa. O fim do império cognitivo. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.
CRENSHAW, Kimberlé. Mapping the margins: Intersectionality. Stanford Law Review, 1991.




















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